05 outubro 2011
20 agosto 2009
Globo x Record
Independente disso, a briga entre as duas maiores redes de televisão do Brasil é muito mais divertiva e interessante do que qualquer um dos seus programas de auditório, reality shows ou novelas. Que continuem brigando!
14 agosto 2009
Medo
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo,
que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio,
porque este não existe,
existe apenas o medo,
nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões,
dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados,
o medo das mães,
o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte
e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Drummond - Congresso Internacional do Medo
06 julho 2009
O Relógio do Mundo
Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda no relógio do mundo.
- Mário Quintana
27 junho 2009
Ao supérfluo
Ao que parece, eram nômades natos.
Banhistas contumazes. Mulherengos.
Como todos os povos que atingiram um alto nível de civilização, os índios eram irrevogavelmente distraídos.
Não costumavam trabalhar. Já que não lhes apetecia comprar nem vender, qualquer trabalho resultava-lhes supérfluo.
E os índios desprezavam o supérfluo, ao contrário de nós próprios que, fabricando diariamente milhares de objetos, acabamos por desembocar na guerra, máquina de matar homens e de... Incinerar objetos.
05 junho 2009
30 abril 2009
11 fevereiro 2009
Divertimentos
Você está sozinho, um ser humano minúsculo, pequeno e você está contra a história inteira de milhares de profetas e messias de todos os lugares, de todas as nações. Naturalmente você se torna sério e sua seriedade faz você sentir-se morto. Seriedade pertence aos mortos. Você já viu algum morto rindo? Ou mesmo sorrindo? O riso pertence a vida; seriedade é parte da morte.
A pessoa viva é sempre brincalhona, não séria. E porque eu digo que fazer amor não é outra coisa senão diversão... lhe disseram que é pecado e eu estou lhe dizendo que é diversão. A diferença é tamanha que você fica perplexo. Não é pecado, se fosse pecado, a existência o teria criado sem suas genitálias. Qual era a necessidade? A natureza encontraria algum outro modo de produzir crianças.
A existência não é contra o sexo. Você precisa estar cônscio do fato de que isso não é só com relação a humanidade...
Os pássaros, os animais, toda a existência depende do sexo para dar nascimento à vida.
É por isso que digo que sexo é brincadeira, é divertimento. Você não pode aceitar a idéia de diversão devido ao seu condicionamento de que é um pecado. Isso é um salto quântico do pecado para a diversão! Mas que posso fazer? Sexo é divertimento.
Osho - From Death to Deathlessness
29 dezembro 2008
25 dezembro 2008
O Deus de cada um
E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens. Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar. E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas. Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de lugar. Agora sou leve, agora vôo; agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus. Assim falou Zaratustra.
Nietzsche
23 dezembro 2008
Borboleta pequenina
se não pudessem voar?
O céu e as estrelas não poderiam vê-las passar
Lá fora eu vejo um mundo
E sinto lá no fundo
Que aqui não é o meu lugar
Eu sou pequenininha, e fico aqui sozinha a sonhar
O meu coração me diz
Que um dia ainda vou ser feliz
Voar para bem longe como eu sempre quis
Um dia eu tive a chance, de ter ao meu alcance
O que fez transformar
Sonho em realidade, escuridão em brilho no olhar
Eu vi que na verdade
A dor um dia pode ter fim
Achei a liberdade, ela tava dentro de mim
O meu coração me diz
Agora eu já sou feliz
Voei para bem longe, como eu sempre quis.
Luciana Mello
08 dezembro 2008
O desafio
Algo semelhante dizia Marx no terceiro livro do Capital. Ai deixa claro que o ponto de partida e de chegada do capital é o próprio capital em sua vontade ilimitada de acumulação. Ele visa o aumento sem fim da produção, para a produção e pela própria produção, associada ao consumo, em vista do desenvolvimento de todas as forças produtivas. É o império dos meios sem discutir os fins e qual o sentido deste tresloucado processo. Ora, são os fins humanitários que sustentam a sociedade e conferem propósito à vida. Bem o expressou o nosso economista-pensador Celso Furtado:"O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos”(Brasil: a construção interrompida,1993,76).
Não foi isso que os ideólogos do neo-liberalismo, da desregulação da economia e do laissez-faire dos mercados nos aconselharam. Eles mentiram para toda a humanidade, prometendo-lhe o melhor dos mundos. Para essa via não existiam alternativas, diziam. Tudo isso foi agora desmascarado, gerando uma crise que vai ficar ainda pior.
A razão reside no fato de que a atual crise se instaurou no seio de outras crises ainda mais graves: a do aquecimento global que vai produzir dimensões catastróficas para milhões da humanidade e a da insustentabilidade da Terra em conseqüência da virulência produtivista e consumista. Precisamos de um terço a mais de Terra. Quer dizer, a Terra já passou em 30% sua capacidade de reposição. Ela não agüenta mais o crescimento da produção e do consumo atuais como é proposto para cada pais. Ela vai se defender produzindo caos, não criativo, mas destrutivo.
Aqui reside o limite do capital: o limite da Terra. Isso não existia na crise de 1929. Dava-se por descontada a capacidade de suporte da Terra. Hoje não: se não salvarmos a sustentabilidade da Terra, não haverá base para o projeto do capital em seu propósito de crescimento. Depois de haver precarizado o trabalho, substituindo-o pela máquina, está agora liquidando com a natureza.
Estas ponderações aparecem raramente no atual debate. Predomina o tema da extensão da crise, dos índices da recessão e do nível de desemprego. Neste campo os piores conselheiros são os economistas, especialmente os ministros da Fazenda. Eles são reféns de um tipo de razão que os cega para estas questões vitais. Há que se ouvir os pensadores e os que ainda amam a vida e cuidam da Terra.
Leonardo Boff
A TV é o seu evangelho
Edward George Ruddy era o manda-chuva da cúpula da União dos Sistemas Televisivos, e ele morreu hoje às 11 horas da manhã de ataque cardíaco.
E "ai" pra nós! Estamos encrencados agora!
Mas, qual é o problema? Afinal, um velho rico baixinho de cabelo branco morreu. E daí? Que influência isso terá no preço do arroz, certo? E por que estaríamos em problemas?
Porque vocês, pessoas, e 62 milhões de outros americanos estão me ouvindo nesse exato instante.
Porque menos de 3% de vocês lêem livros.
Porque menos de 15% de vocês lêem jornais.
Porque a única verdade que vocês sabem é a que sai dessa caixa.
Nesse exato momento há uma geração inteira que nunca aprendeu nada que não tivesse saído dessa caixa! Essa caixa é seu evangelho. É a revelação máxima. Essa caixa pode fazer ou depor Presidentes, Papas e Primeiro-Ministros. Essa caixa é a maior força que existe em todo o mundo de Deus, e estamos ferrados se ela cair nas mãos de pessoas erradas! E é por isso que estamos encrencados, porque Edward George Ruddy morreu.
Porque essa emissora está agora nas mãos da CCA, a Corporação de Comunicação da América. Há um novo manda-chuva agora no comando dessa emissora, chamado de Frank Hackett sentando na cadeira da sala do Sr.Ruddy no 20º andar. E quando as 12 maiores empresas do mundo controlam a maior e mais fantástica máquina de propaganda do mundo inteiro de Deus, quem saberá que merda será negociada como sendo a verdade nessa emissora?
Então me escutem. Me escutem!
Televisão não é a verdade. Televisão é uma porcaria de um parque de diversões!
Televisão é um circo, um carnaval, um bando de acrobatas, contadores de estória, dançarinos, cantores, pilantras, montadores de shows de mentiras, domadores de leões e esportistas.
Estamos num negócio em que a única coisa que importa é matar o tédio.
Por isso, se vocês querem a verdade, procurem Deus.
Vão procurar seus gurus.
Procurem seus interiores!
Porque lá é o único lugar onde encontrarão alguma verdade.
Cara, você sabe que não conseguirá nenhum tipo de verdade de nós. Nós te contamos qualquer coisa que você quiser ouvir. E mentimos sem remorso.
Nós te dizemos que o Detetive sempre pega o assassino, e que ninguém nunca pega câncer na novela das cinco.
E não importa em quantos problemas o herói esteja, não se preocupe. Olhe bem para o seu relógio, quando tiver passado uma hora ele terá vencido! Nós te dizemos qualquer merda que você queira ouvir!
Nós vendemos ilusões. Mas não a verdade!
Mas vocês, pessoas, sentam na frente dela, dia após dia, noite após noite. Vocês são de todas as idades, cores e credos. Somos todos que vocês conhecem.
Vocês estão começando a acreditar até nas mentiras que estamos lhes dizendo nesse exato momento. Vocês estão começando a acreditar que a caixa é de verdade e que suas vidas são de mentira! Vocês fazem tudo que a caixa manda vocês fazerem! Vestem-se como ela manda, comem o que ela manda, criam suas crianças como ela quer e até pensam como a caixa!
Isso é uma alucinação coletiva em massa, seus maníacos!
Em nome de Deus, vocês pessoas é que são a realidade! Nós aqui dentro é que somos a ilusão!
Então desliguem a TV! Desliguem a TV agora mesmo!
Desliguem sua TV e deixem ela aí no canto da sala. Desliguem a TV no meio dessa frase que estou dizendo.
Desliguem!
Rede de Intrigas - Network (1976)
03 dezembro 2008
Comida para vermes
Carpe diem quam minimum credula postero - Colhe o dia e confia o mínimo no amanhã.
Horácio, em Odes
Fui à floresta porque queria viver profunda e intensamente (...) sugar a essência da vida. Eliminar tudo que não for vida, e não, ao morrer, descobrir que não vivi.
Henry David Thoreau
24 setembro 2008
23 setembro 2008
21 setembro 2008
Janela da Alma
Começo do filme Janela da Alma
Oliveiro Toscani – A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri
17 setembro 2008
Filhos do Universo
Nelson Mandela
19 agosto 2008
Será que esse curso é bacana?
(Link)18 agosto 2008
O piá que fazia pipas
Posso ter ficado emocionado com as referências a Dalton, ou, talvez, em lembrar de locais familiares onde há tempos não passo; quem sabe foi pela história triste e realista, ou somente pelas citações ao Atlético... Realmente não sei.
Só sei que me impressionou. Que me tocou. Que me fez refletir. Isso é arte! Isso é cultura! É mais disso que nos falta. E é por isso que lhes ofereço...
"As histórias estão na vida. Eu só me encarrego de ver, ouvir, trocar os nomes e fazer crer que tudo não passa de ficção. Aos que perguntam se o que escrevo é mentira, costumo responder: “É mentira, é tudo mentira!”. Dói menos e eu ainda ganho fama de ficcionista, coisa bastante interessante pra um sujeito que brinca de escrever.
Curitiba são muitas. Uma delas é a do Vampiro. A Curitiba do Vampiro não é a mais assustadora, tampouco é a mais cruel. Curitiba são muitas. Uma delas é a da propaganda institucional que, independente do partido, mostra uma cidade bonita e humana. A Curitiba oficial não é a mais bonita, a Curitiba oficial não é a mais humana.
Curitiba são muitas e numa delas nasceu Paulo Roberto – o Paulinho – apelido que caía bem a um guri de corpo tão franzino. Paulinho, o primogênito, era irmão de Francisco, três anos mais moço, ambos filhos de dona Estela, cujo marido havia morrido numa briga de bar, defendendo a honra de uma prostituta que lhe fazia o papel de amante e de fornecedora de cocaína. Estela, Paulinho, Chico, o pai morto a tiros, a amante prostituta e Deus: agora você está apresentado a uma legítima família curitibana. Curitiba são muitas.
A Curitiba onde nasceu Paulinho era repartida em Vilas, hoje fundidas em setenta e cinco bairros cuidadosamente desenhados nos mapas do Instituto Municipal de Planejamento e Urbanismo. Olhando o mapa tudo parece tão perto, mas na vida real as distâncias costumam saltar aos olhos. As distâncias físicas machucam o corpo; as distâncias sociais machucam a alma. Pobre em Curitiba é machucado por dentro e por fora. Dona Estela, Paulinho e Chico eram pobres. Traziam consigo, no corpo e na alma, incontáveis cicatrizes. Algumas desapareceram; outras, não.
Dona Estela era balconista de uma padaria no centro histórico de Curitiba. Emprego modesto, muitas horas de trabalho atrás do balcão. Chegava e saía sempre cansada, nunca teve ânimo – ou curiosidade - para erguer os olhos e ler a orgulhosa inscrição que atestava “Tradição e qualidade desde 1913”. O gerente da padaria era um sujeito rude, homem de poucas palavras e que se limitava a ser gentil com os clientes, e só com os clientes.
Os melhores pães e broas, as melhores tortas e bolachas e os frios mais frescos e saborosos, tudo isso, passava pelas mãos de Dona Estela que antes de sentir desejo de provar essas delícias, sentia tristeza por não poder levá-las para casa e saciar o apetite dos filhos. Uma senhora havia sido demitida por ter furtado meio quilo de presunto. Ela não se atreveria a perder o emprego, embora a tentação fosse grande de levar consigo boa partida de queijo, de presunto e de pão.
O máximo que conseguia era levar, duas ou três vezes por semana, as broas úmidas que haviam ficado ressecadas e que por isso já não podiam ser vendidas pela padaria, sob pena de serem colocadas em xeque a tradição e a qualidade conquistadas desde 1913. Quando sobravam broas ressecadas, Dona Estela pedia ao gerente autorização para levá-las para casa e ouvia como resposta: “Pode levar, pois broa seca assim nem porco come!”. Ela sorria, sem jeito, para disfarçar o choro e ia embrulhar as broas que serviriam de jantar para os filhos.
Dona Estela embrulhava as broas em quatro ou cinco voltas de um papel fininho, depois amarrava tudo com barbante e levava para casa o pacote, caminhando pelas ruas de pedra, de olhos baixos, para disfarçar as lágrimas que ameaçavam lhe escorrer pela face. A Curitiba do Vampiro não é a mais assustadora, tampouco é a mais cruel. Do outro lado da cidade, numa vila perdida, Paulinho esperava a chegada da mãe.
Havia três grandes motivos para a espera: ver a mãe chegar em segurança, comer a broa que ela trazia e aproveitar o papel e o barbante do embrulho para fazer pipa. Mal a mãe apontava no começo da rua e Paulinho já vinha ao seu encontro: “Mãe, tava preocupado! Que saudade, mãe!” – e logo atrás vinha o Chico para repetir a cena e encher de alegria o coração materno.
“A mãe trouxe aquela broa sequinha que vocês gostam. Aquela que fica mais gostosa quando a gente molha no café!”. E o anúncio materno botava na cara da piazada um sorriso que só a alegria consegue criar. “Então vamos rápido, mãe, pois ainda precisa ferver água pra fazer o café!” – ordenava Paulinho, trazendo Dona Estela pela mão como se assim ela pudesse andar mais ligeiro.
Depois do café com broa, Paulinho pegava o papel do embrulho, alisava, cortava as partes amassadas e esticava o barbante, sempre sob o olhar atento e curioso do irmão Francisco. Paulinho fazia pipas e vendia pela vizinhança, ganhando o dinheirinho que, segundo ele, seria usado para comprar uma camisa oficial do Atlético, seu time de coração. Francisco olhava tudo curioso, como se diante dele existisse não apenas um irmão, mas um gênio!
Naquela noite, após o café com broa, Paulinho se preparou para fazer mais uma pipa. Mais uma, não. Desta vez, ele faria uma pipa para ele, e não uma pipa para vender aos vizinhos. Paulinho pegara o papel, o barbante, umas varetas que lhe foram presenteadas pelo dono da venda, seu Almir, e tintas guache que lhe foram dadas pela Professora Débora, a moça que ensinava Artes na escola da vila. Paulinho estava pronto para fazer a sua pipa, com as cores do Atlético, uma vez que o vermelho e o preto já estavam garantidos nos potinhos trazidos da escola.
Quando Paulinho ia começar os trabalhos, ouviu o pedido do irmão: “Me ensina?”. Surpreso, Paulinho perguntou: “Por que você quer aprender a fazer pipas?”. Obteve resposta nada esclarecedora: “Porque sim, ué!”. E como pouco adiantava levar adiante aquele diálogo, permitiu que o irmão pudesse ter a preciosa lição e, na condição de Mestre, Paulinho se sentiu importante, sentiu-se rico.
Pensou: “Pobre é quem não tem o que dividir e nem tem o que ensinar. Eu tenho papéis, barbantes, cola, varetas e tintas para dividir com meu irmão. Eu sei fazer pipas e posso ensinar o meu irmão e, quem sabe, ele pode me ajudar a fazer pipas e a ganhar dinheiro pra comprar minha camisa oficial do Atlético!”. Pobreza é não ter o que dividir, é não ter o que ensinar. Naquela casa não havia espaço para a pobreza. Paulinho estava pronto para fazer a pipa e para ensinar seus segredos ao irmão Chico. Segredos a gente só conta para um irmão!
E a aula foi iniciada. Cola daqui e dali, tesoura, barbante, varetas. “Entorta um pouco mais, Chico!”, “Se passar muita cola a pipa fica pesada e não sobre direito!”, “Ô piá burro! Já disse que é pra botar menos cola!”, “Aí, Chico, é desse jeito mesmo!”, “Pega a tinta que agora só falta pintar de vermelho e preto, Chico!”.
Dada a ordem, Chico foi até o quarto e trouxe as tintas: potinho verde e potinho branco, para espanto de Paulinho. “Tá de sacanagem comigo, Chico? Pega os potes certos: tinta vermelha e tinta preta, das cores do Atlético!”. Chico, olhando o irmão nos olhos, revelou:
- Eu quero minha pipa verde e branca, pois eu gosto do Coxa! (Segredos a gente só conta para um irmão!).
Paulinho, atônito, tentou demover o irmão da idéia de pintar a pipa de verde e branco, mas não teve jeito. Chico protestou:
- Eu quero minha pipa verde e branca. Você já fez pipa pra todo mundo, menos pra mim, Paulinho! O que é que te custa?
Paulinho fez as contas em silêncio e contabilizou seu prejuízo: ficaria sem sua pipa do Atlético, ficaria sem a pipa para vender no dia seguinte, teria de esperar um novo embrulho de broas para obter material para outras pipas e, por fim, houve por bem atender ao pedido do irmão. “Pobre é quem não tem o que dividir e não tem o que ensinar” – pensou Paulinho enquanto ajudava o irmão a pincelar as cores do inimigo na pipa que era para ser vermelha e preta.
Daquela noite em diante, Paulinho e Chico fizeram juntos dezenas de pipas, vendidas por toda a vizinhança. Paulinho nunca conseguir fazer a sua pipa Rubro-Negra, tampouco as pipas lhe renderam dinheiro suficiente para comprar a sonhada camisa oficial do Atlético. Dona Estela morreu logo depois de Paulinho completar dezoito anos; Chico ainda nem tinha quinze. Os irmãos tiveram de se separar. Paulinho foi servir o exército juntando-se ao 5º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada; Chico foi morar com parentes em Paranaguá. Nunca mais iriam se encontrar.
Paulinho se casou, formou-se Advogado e tem um bom emprego na Justiça Federal. Tem casa, carros e dois filhos atleticanos: Estela, hoje com 17 anos; e Francisco, prestes a completar 14. Dia desses, foram os três, vestidos com a Camisa do Atlético, assistir jogo na Arena. Caminhavam ligeiro pela Getúlio Vargas, com seus cartões de sócio em punho, prontos para entrar na Baixada.
De repente, Paulinho parou diante de um varal onde estavam penduradas as bonitas camisas Rubro-Negras e as pipas do Atlético. Apesar dos protestos dos filhos - Pai, tá em cima da hora! Vamos! -, Paulinho perguntou o preço da pipa, comprou e a colocou debaixo do braço como se fosse um pacote de broas, como se fosse um pedaço da infância, como se fosse um sonho.
E entrou chorando na Arena da Baixada, como se ainda fosse um piá ou como se fosse o homem mais rico do mundo. As histórias estão na vida. Eu só me encarrego de ver, ouvir, trocar os nomes e fazer crer que tudo não passa de ficção."
Rafael Lemos
