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08 novembro 2012

Repostagem Merecida!


A linda carta/poesia abaixo, de Pablo Neruda, já foi postada aqui no blog. Mas como tudo o que é bom, essa poesia merece um retorno!


Adeus, 
porém comigo estarás, 
sempre irás dentro de uma gota de sangue que circule em minhas veias ou fora,
beijo que me abrasa o rosto ou cinturão de fogo na cintura.

Doce minha, 
recebe o grande amor que me saiu da vida e que em ti não achava  território 
como o explorador perdido nas ilhas do pão e do mel.
Eu te encontrei depois da tormenta, a chuva lavou o ar,
na água, teus doces pés brilharam como peixes.
 
Adorada, 
me vou a meus combates.
Arranharei a terra para te fazer uma cova 
e ali teu Capitão te esperará com  flores sobre o leito. 
Não penses mais, amada, no tormento que passou entre nós dois 
como um raio de fósforo, deixando-nos, talvez, a queimadura.
A paz chegou também porque regresso à luta em minha terra,
e como tenho o coração completo com a parte do sangue que me deste para sempre,
e como levo minhas mãos cheias do teu ser desnudo,
olha-me pelo mar que vou radiante,
olha-me pela noite que navego,
e o mar e a noite, amor, serão os teus olhos.
 
Eu não saio de ti quando me afasto.
 
Agora vou te contar: 
vai ser tua a minha terra, vou conquistá-la,
não só para te dar, mas para dar a todos, para todo o meu povo.
Um dia o ladrão deixará a sua torre, e o invasor será expulso.
E todos os frutos da vida crescerão em minhas mãos acostumadas antes à pólvora.
E saberei acariciar as novas flores porque tu me ensinaste o que é ternura.
 
Doce minha, 
adorada, 
virás comigo lutar corpo a corpo,
porque em meu coração vivem teus beijos como bandeiras rubras,
e se caio, não só me recobrirá a terra, também o grande amor que me trouxeste,
que viveu circulando por meu sangue. 

Virás comigo,
e nessa hora te espero, nessa hora e em todas as horas,
em todas as horas te espero.
E quando venha a tristeza que odeio bater à tua porta,
diz a ela que te espero, 
e quando a solidão queira que mudes esse anel em que meu nome está escrito,
diz pra solidão falar comigo, 
que eu precisei partir porque sou um soldado,
e que ali onde eu estou, sob a chuva ou sob o fogo, amor meu, te espero.
Te espero no deserto mais duro e junto do limoeiro florescido,
em qualquer lugar onde esteja a vida, 
onde esteja nascendo a primavera, amor meu, te espero.
E quando disserem: "Esse homem não te quer", recorda que meus pés estão sós nessa noite e procuram os doces e pequenos pés que adoro. 

Amor, 
quando te disserem que eu já te esqueci, 
e quando seja eu mesmo quem diga, não acredite.
Quem e como poderiam te cortar do meu peito?
E quem receberia meu sangue quando em teu ser eu estivesse sangrando? 
Porém tampouco posso esquecer o meu povo. 
Vou lutar em cada rua, atrás de cada pedra. 
O teu amor me ajuda: 
és uma flor fechada que me enche cada vez com seu aroma 
e que súbita se abre dentro de mim como uma grande estrela. 

Amor meu, 
é de noite. 
Essa água negra, o mundo dormindo, me rodeiam. 
Já está chegando a aurora,
e enquanto vem te escrevo para dizer que te amo. 
Para dizer: "te amo", cuida, limpa, levanta, defende nosso amor, alma minha. 
Aqui te deixo como se deixasse um punhado de terra com sementes. 
Do nosso amor nascerão vidas.
Em nosso amor beberão água. 
Talvez chegará um dia em que um homem e uma mulher, iguais a nós dois, tocarão este amor, 
que ainda terá força para queimar as mãos que o toquem. 
Quem fomos? O que importa? 
Tocarão este fogo e o fogo, doce minha, dirá teu simples nome e o meu, 
o nome que só tu soubeste 
porque só tu sobre a terra sabes quem sou, 
e porque ninguém me conheceu como uma, como só uma de tuas mãos, 
porque ninguém soube como, nem quando, meu coração esteve ardendo: 
só teus olhos grandes pardos o souberam, 
tua vasta boca, tua pele, teus peitos, teu ventre, tuas entranhas 
e essa alma que eu despertei só para que ficasse cantando até o fim da vida. 

Amor, te espero.
 
Adeus, amor, 
te espero.
 
Amor, 
amor, te espero. 

E assim termina esta carta sem nenhuma tristeza: 
sobre a terra estão firmes os meus pés, 
minha mão escreve esta carta no caminho, 
e no meio da vida estarei sempre junto ao amigo, frente ao inimigo, 
com teu nome na boca e um beijo que jamais se separou da tua.


Pablo Neruda

07 novembro 2012

Frederico García Lorca


Poesia e citação do poeta espanhol. Cazuza tinha razão!







Seis Cordas

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira
.



"Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo."








 

22 outubro 2012

Reedição


"Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências."

Autor desconhecido
(falsa atribuição à Pablo Neruda)



05 outubro 2012

Voltamos, moçada!


 Longo foi o período sem você. Sentimos saudades e resolvemos voltar. E voltamos com a nossa cara, com o nosso jeito! Voltamos para vivermos como nunca e como sempre. Voltamos porque existe muito de você em nós e para deixar um pouco mais de nós em você. 

Pensando bem, voltar é o verbo errado! Não se pode voltar quando nunca se foi... e como não fomos, ficamos. Ficamos, estamos e somos, sempre, Vinicius de Moraes.


"Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranqüilidade

A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.

E nada como esse apelo da lembrança
Para se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma leve

Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até-quando
Num ardente desejo de até-breve."

Vinicius de Moraes

  

14 dezembro 2010

Às vezes

Às vezes ouço passar o vento;

e só de ouvir o vento passar,

vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

08 dezembro 2010

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso



que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso


Edward Estlin Cummings

10 outubro 2010

Sossego

Sossegue coração
ainda não é agora.
A confusão prossegue
sonhos afora

Calma, calma
logo mais a gente goza.
Perto do osso
a carne é mais gostosa.

Paulo Leminsky

08 outubro 2010

Nu

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...
Manuel Bandeira

02 outubro 2010

Boda Espiritual

Tu não estas comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

Manuel Bandeira

01 outubro 2010

Operário em Construção

Vinícius de Moraes, antes de ser músico incrível e um eletrista inigualável, era um poeta apaixonado, mas que também escrevia sobre política. Essa poesia que segue é de leitura obrigatória a quem vai votar nesse final de semana.

Operário em Construção - Vinícius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião

Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?

(...)
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui,
Adiante um apartamento
Além uma igreja. À frente,
um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente,
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção

Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!

Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.

O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração

E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
-Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

30 setembro 2010

Bolsa família

José Guilherme de Araújo Jorge - Migalhas

O resto de teu prato, o resto
de milhares de outros pratos enfastiados
são o autoflagrante do crime sem protesto
perpetrado- por aqueles que têm pão e teto
e a segurança de seu próprio nome,
contra os que vivem sem lar sequer
e os que caem esquálidos de fome!
Como uma gota d'água pequenina
a gigantesca massa de um oceano
pode fazer, um dia, transbordar,
é essa migalha, - a sobra e o desperdício, -
que há de fazer rolar num dia adiante
no mais sombrio e rude precipício
e avalanche de fome e da miséria!
E essa avalanche há de arrastar, passando,
a humanidade toda,
e há de deixar um campo devastado
só com o sangue dos homens adubado
para uma nova criação...
Das ruínas de uma tal devastação
dos destroços e escombros
da nossa humanidade derrubada,
surgirá uma outra humanidade mais perfeita
e uma mentalidade mais formada!
É essa migalha de pão
que tu jogaste fora sem notar,
- a gota pequenina que há de um dia
fazer todo um oceano transbordar!

23 setembro 2010

Eles passarão. Eu passarinho.


Simultaneidade


- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!

- Você é louco?

- Não, sou poeta.



Mario Quintana

16 setembro 2010

O TEATRO MÁGICO - CURITIBA - 17/09/2010


Amanhã, 17 de setembro, estará em Curitiba a Trupe do Teatro Mágico (www.oteatromagico.mus.br).

Portanto, para os que gostam e os que ainda vão gostar, NÃO PERCAM! O show é simplesmente SENSACIONAL!

Um pouco para a moçada, do muito que vai rolar amanhã:





Informações:

Dia: 17/09/2010
Horário: 00h30
Local: Moinho Eventos
Endereço: Rua Des. Westphalen, 4000 . Rebouças.

INGRESSOS

MEIA-ENTRADA
1º Lote – Pista = R$ 25,00
2º Lote – Pista = R$ 30,00
3º Lote – Pista = R$ 35,00

PONTOS DE VENDA

Disk Ingressos
41 3315 0808/ www.diskingressos.com.br
Quiosque Shopping Mueller
Quiosque Shopping Estação
Quiosque Shopping Total

Yoguland Batel
41 3223-4591 / Al Dom Pedro II, 499

Bella Banoffi
41 3262-0004 / Rua Itupava, 1091, Alto da XV

Academia Hype
41 3018-9898 / Rua João Gualberto 1487, Juvevê

INFORMAÇÕES
41 3014-9006


OBSERVAÇÕES:

Meia entrada:

Estudantes mediante apresentação da carteira de estudante no ato da compra e apresentada juntamente com a carteira de identidade na portaria da casa de eventos. As carteiras de estudantes deverão estar dentro do prazo de validade.

Doadores de 1 kilo de alimento não perecível.

Doadores de sangue, mediante apresentação da carteira de doador

Idosos acima de 65 anos de idade.

Camarotes e mesas somente pelo Disk Ingressos (3315-0808)

Classificação Etária: 18 anos.

Pagamento em dinheiro.


30 agosto 2010

Cléo Pires & Fernando Pessoa


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa

05 agosto 2010

Porque metade de mim é amor...



Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também


02 agosto 2010

A CARTA NO CAMINHO



Adeus, mas comigo
será, irá dentro
uma gota de sangue circulando em minhas veias
ou fora delas, um beijo que queima o meu rosto
ou cinturão de fogo na minha cintura.
Minha doce, recebe
o grande amor que saiu da minha vida
e que em você não encontrava abrigo
como o explorador perdido
nas ilhas do pão e do mel.
Encontrei-a depois da tempestade
a chuva lavou o ar
e na água seus doces pés brilhavam como peixes.

Amada, estou indo para os meus combates.

Cave a terra para fazer uma caverna
e ali o seu capitão
estará esperando com flores nos lençóis.
Não pense mais, minha doce,
no tormento
que
aconteceu entre nós,
como um fósforo aceso.
Deveríamos, talvez, deixar essa sua queimadura.
A paz chegou, também, porque eu voltei
a lutar em minha terra.
E como eu tenho coração completo
com a parte do sangue que você me deu
para sempre,
e como
levo
as mãos cheias de seu ser despido
Olhe-me
Olhe-me
Veja-me através do mar, que vou radiante
Veja-me através da noite em que navego,
e do mar e da noite são seus olhos.
Eu não te deixei quando fui embora.
Agora vou dizer-te:
minha terra será sua
irei conquistá-la
não só para te dar,
mas para todos
para todos os meus.
O mal sairá desta torre um dia.
E o invasor será expulso.
Todos os frutos da vida
crescerão em minhas mãos
usadas antes da pólvora.
E saberei tocar novas flores
porque você me ensinou a ternura.
Minha doce amada,
venha comigo lutar corpo a corpo
porque em meu coração vivem seus beijos
como bandeiras vermelhas
e se eu cair, não serei sozinho
a terra não me cobrirá
sem esse grande amor que me trouxe
e que viveu circulando em meu sangue.
Venha comigo,
nessa hora eu te espero,
nessa e em todas as horas,
em todas as horas te espero.
E quando a tristeza, que eu odeio,
bater à sua porta
diga que eu te espero
E quando a solidão quiser mudar
o meu nome que está escrito em seu anel
Diga para a solidão que fale comigo
Diga que tive que ir embora
porque
sou um soldado
e que onde eu estiver,
na chuva ou sob
fogo,
meu amor, eu vou te esperar,
Esperarei nos piores desertos
ou junto a um limoeiro florecido
Em todas as partes onde houver vida,
Onde a primavera nascer,
meu amor, eu te esperarei.
Quando disserem: "Esse homem
não te ama ", lembra que
meus pés estarão sós nessa noite e buscarão
os doces e pequenos pés que eu adoro.
Amor, quando te disserem
que te esqueci, e mesmo quando
eu disser,
não acredite em mim
Quem e como poderíam
cortar você do meu peito?
E quem receberia
meu sangue
quando sangraria por você?
Mas eu não posso
esquecer os meus.
Vou lutar em cada rua,
por trás de cada pedra.
Seu amor também me ajuda:
É uma flor fechada
que sempre se enche de aroma
e de repente se abre
dentro de mim como uma grande estrela.

Meu amor, é noite.

A água negra, o mundo
adormecido ao meu redor.
Logo virá o amanhecer
e enquanto isso eu estou escrevendo
para dizer "te amo".
Para dizer "eu te amo, cuide-se,
limpe-se,
defende
o nosso amor, Alma Minha.
Eu o deixei como se deixasse
um punhado de terra com sementes.
Do nosso amor nascerão vidas.
No nosso amor beberão água.
Talvez chegará um dia
em que um homem
e uma mulher, como
nós,
tocarão esse amor, e ele ainda terá força
para queimar as mãos de quem tocá-lo.
Quem o tocará? Importa?
Tocarão este fogo
e este fogo, minha doce, dirá apenas o seu nome
e o meu nome
para que só você sabia, porque só você
na Terra sabe
quem eu sou, e porque ninguém me conhece
como a palma das suas mãos
porque ninguém
sabe como e nem quando
meu coração estava ardendo:
tão só
seus grandes olhos castanhos que eu conhecia,
a boca,
sua pele, seus seios,
seu ventre, seu interior
e a alma que eu despertei
para ficar
cantando até o fim da vida.

Amor, eu espero.

Adeus, amor, eu espero.

Amor, amor, eu espero.

E assim, esta carta é concluída
sem tristeza:
meus pés estão firmes na terra,
a minha mão a escrever esta carta na estrada,
e no meio da vida estarei,
sempre,
junto com meus amigos, enfrentando o inimigo,
com o seu nome na boca
e um beijo que jamáis
se afastou da nossa casa.



Pablo Neruda

20 julho 2010

Dia do Amigo


"E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Mas sobretudo não morrais, amigos meus!"

Vinicius de Moraes

19 julho 2010

Homenagem ao Diplomata

Holanda, Europa! E sabe Deus mais onde. E sabe Deus se volta!

Mas, por aqui, os amigos o saúdam, meu guri! E o Colarinho nos aguarda com sede!


09 julho 2010

30 anos sem poesia



"De manhã escureço. De dia tardo. De tarde anoiteço. À noite ardo". "A gente não faz amigos, reconhece-os". "Existem umas feias potáveis. Mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão". "O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado". "Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém".

No dia 9 de Julho de 1980, o autor das frases acima, Vinicius de Moraes, falecia em virtude de um edema pulmonar.

Hoje, 9 de Julho de 2010, trinta anos após a morte de Vinicius, namoros continuam sendo embalados pela sua poesia, amizades continuam sendo valorizadas conforme suas linhas e as noites de boêmia regadas com sua música.

Vinicius é um desses caras que não morrem. É desses que se tornam eternos, e não só enquanto duram. Sua poesia remeterá sempre à imagem do bom amigo, grande boêmio e eterno apaixonado pelas mulheres.

Ouvi, certa vez, que todo homem que se preze tem que ser um pouco Vinicius de Moraes. Não ousei discordar.

É, Poetinha, 'estamos sós, como os veleiros nos portos silenciosos'. Mas, como diria Chico, a gente vai levando.

Deixo a memória com um samba. Um samba que não é de Vinicius. É 'O Samba pra Vinicius'.


SAMBA PRA VINICIUS

Toquinho e Chico Buarque