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26 outubro 2012

Viver o Seu Eu



"Ao tomar uma decisão de menor importância, eu descobri que é sempre vantajoso considerar todos os prós e contras. Em assuntos vitais, no entanto, tais como a escolha de um companheiro ou profissão, a decisão deve vir do inconsciente, de algum lugar dentro de nós. Nas decisões importantes da vida pessoal, devemos ser governados, penso eu, pelas profundas necessidades íntimas da nossa natureza."
 
Sigmund Freud

16 fevereiro 2011

Ser inteiro




Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas tranasformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorrew até um processo de despersonalização que, históricamente, tem atingido mais a mulher; ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria.
Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras.
O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é principe ou no salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem que ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo.
O egoísmo não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem uma nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros, e não a união de 2 metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa aklma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo a nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontrados dentro dele mesmo, e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de 2 pessoas inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Nem sempre é suficiente ser perdoaqdo por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...

Dr. Flávio Gikovate

11 dezembro 2010

11 novembro 2010

Repetição

A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão...
Sigmund Freud

11 agosto 2010

Quem matou Getúlio Vargas?

“A direita tentou dar um golpe a cada 24 horas para não permitir que as forças democráticas pudessem continuar neste país. Foram oito anos de ataques, provocações e infâmias. Eu mandei dizer a essa elite: vocês mataram Getúlio (Vargas), obrigaram (João) Goulart a renunciar e o Jânio Quadros durou seis meses. Se quiserem me enfrentar, não vou estar no meu gabinete lendo o jornal de vocês. Estarei nas ruas conversando com o povo brasileiro!” – presidente Lula em comício no ginásio Gigantinho de Porto Alegre. Fonte: Leila Suwwan in O Globo, 30 de julho de 2010.

É verdade que “a elite” existe, é verdade que “a elite” é dona de jornais, é verdade que “a elite” luta pelo poder o tempo todo. Porém, não é verdade que “a elite” matou Getúlio Vargas, não é verdade que “a elite” obrigou João Goulart a renunciar, não é verdade que “a elite” fez Jânio Quadros durar seis meses. Pior que “a elite”, mais forte que “a elite” é o que o genial Sigmund Freud descobriu em sua clínica depois de 50 anos de trabalho diário escutando gente doída, gente quebrada, gente dividida, gente sofrida demais, e que denominou de “pulsão de morte”. O que é a pulsão de morte? É uma força avassaladora do sujeito contra si mesmo, uma força de ataque 24 horas por dia, trabalhadora sem descanso, nem dó nem piedade, uma força sabotadora, força sacaneadora, força que vai contra o ideal aristotélico de que o ser humano busca o bem, busca a felicidade. Errado. O ser humano busca se ferrar o tempo todo, se machucar, se perder, se danar – sem querer...querendo. Getúlio Vargas fez isso ao se tornar um ditador fascista, João Goular fez isso ao construir sem saber e sem querer – essa força é inconsciente – a sua própria queda e Jânio Quadros fez isso ao renunciar. Este, pelo menos, distinguiu vagamente o problema. Chamou de “forças terríveis” a autora de sua trapalhada. A pulsão de morte é esse terrível na cara, no dia-a-dia, à vista o tempo todo – porém, disso, o sujeito nada quer saber – prefere acreditar na genética, se entupir com comprimidos e se benzer com rezas. Senhor presidente: não se combate essa força indo falar com o povo brasileiro – que sofre do mesmo mal. Essa força, senhor presidente, só com análise. À disposição, senhor presidente.
Blog de Leonardo Ferrari

10 junho 2010

Não são os fatos que produzem felicidade

Chico Buarque canta João e Maria dizendo que pela sua lei se é obrigado a ser feliz, mas pra lá desse quintal é uma noite que não tem mais fim. Aí, vem outro Buar­­que, o Cristovam, senador da Repú­­blica, e apresenta projeto de emenda à Constituição para in­­cluir no texto como essencial à busca da felicidade, um conjunto de direito sociais, desdobrados em direito à saúde, educação, moradia, lazer, assistência e previdência social, pro­­teção à ma­­ternidade. Insuficiente a felicidade química, agora se inventa a felicidade legal.
Será que o exercício de todos esses direitos faz a pessoa mais feliz? Um norte-americano que ingere alimentos suficientes para alimentar três pessoas, consome energia suficiente para aquecer e transportar quatro, mora em espaço suficiente para cinco, é mais feliz que alguém que vive na linha da pobreza? A felicidade é objetiva ou subjetiva? Os europeus que tudo conquistaram padecem de visível e triste tédio diante da ausência de coisas grandes para conquistar. Os desafios de tudo fazer como os que temos no Brasil são causa de infelicidade?
A intenção do senador Cris­­tovam Buarque é generosa. Diga-se, a candidatura a presidente da República em 2006, com discurso centrado no tema da educação foi a nota poética daquela eleição. A sua presença no pleito foi causa de felicidade. Os contorcionismos a que o mercado eleitoral compele os candidatos mais competitivos dão ar quase patético às eleições. Para que a tristeza não seja avassaladora, sempre surgem candidaturas poéticas que fazem discursos melódicos, quer usem a cadência do samba ou de Camões. Vol­­tando da digressão, o senador diz que a felicidade se desdobra em se­­te dimensões: para cima é estar bem com Deus; para baixo é estar em harmonia com a Ter­­ra; para fren­­te é não ter medo do futuro; pa­­ra trás, não ter remorso; para o la­­do direito, estar de bem com a fa­­mília; para o lado esquerdo, con­­viver com a comunidade (o mun­­do); por fim, a sétima dimensão, é para dentro, é estar bem consigo.
A expressão jurídica da generosidade do senador não é rústica como se um tirano decretasse a obrigação de ser feliz. A rigor, isso seria inconstitucional porque qualquer um poderia alegar cerceamento ao seu direito de ser infeliz, rabugento, mal-hu­­morado, mal-amado. Ele foi suficientemente hábil para redigir a proposta de modo a que o direito seja relativo a aspectos materiais como meio para a felicidade, assegurando que a pretensão de mudança do texto seja congru­­ente com os princípios da Cons­­tituição, se mantendo a liberdade para ser feliz ou infeliz. As­­sim, mesmo quem possua todos os bens materiais, tem o direito a escolher se quer ser feliz ou infeliz. Isso, a rigor, reduz a felicidade a seu aspecto subjetivo, isto é, ao modo como a pessoa vê o mundo e se vê nele. O exemplo clássico nos livros de filosofia é o adultério: se Tício acredita que Laetitia é fiel, apesar das escapadinhas secretas que ela dá en­­quanto ele vai à guerra contra os bárbaros, Tício é subjetivamente feliz. D’outra banda, Laetitia age como Penélope e se mantém fiel enquanto Tício está em combate, mas Tício não acredita nisso e fica subjetivamente infeliz. Em outras culturas sequer há o conceito de adultério, não sendo a multiplicidade de parceiros fonte de tristeza, só de alegria. Não são os fatos que produzem felicidade, mas o modo como a pessoa se posiciona diante deles.
Lupicínio, cantado por afinados e desafinados, dizia que o pensamento é uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quan­­do começa a pensar. Ainda que a felicidade vá embora, na minha casa, lá detrás do mundo, encontro o aconchego que restaura as emoções e traz nova sensação de felicidade. É no eu profundo que está a felicidade. Diga-se a música, chave das portas da alma, tira qualquer um da fossa, como o sofisticado balanço do famoso dezesseis toneladas.
Friedmann Wendpap

08 junho 2010

Terapia de Casal

Um casal vai a um psicólogo, após 20 anos de casamento.
Logo chegando no consultório, o terapeuta (jovem, bonitão e super malhado), pergunta qual é o motivo da consulta, e a mulher: Pouca atenção, falta de intimidade, vazio, solidão, não me sinto amada e desejada e por aí vai... O psicólogo se levanta, se aproxima da mulher, pede que ela também se levante, a abraça e a beija com paixão, enquanto o marido os observa impressionado. A mulher fica muda e se senta meio atordoada. O terapeuta vira para o marido e diz: Isto é o que sua mulher precisa pelo menos 3 vezes por semana! Você consegue? O marido pensa um pouco e responde: Bom, eu posso trazê-la segunda e quarta, mas, às sextas, eu jogo bola!

26 fevereiro 2010

Excelentes respostas

A psicanalista Regina Navarro Lins participou de bate-papo no site Uol sobre o resultado da pesquisa do Datafolha a respeito da sexualidade do brasileiro, que foi publicada no último domingo na Folha de São Paulo.

O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas.

Regina Navarro: Olá, Boa tarde! Estou aqui para responder a perguntas sobre relacionamento amoroso e sexual.

Cabeludo fala para Regina Navarro: Olá, Regina. Alguns psicanalistas falam que a normalidade do Brasil não é o neurotico e sim o perverso... O que isso resulta na cama?

Regina Navarro: Cabeludo: não sei o que querem dizer com isso. Esses critérios dependem de época e lugar. Acredito que no sexo tudo é permitido, desde que os envolvidos estejam de acordo. Não existe regra, certo ou errado.

Lelê fala para Regina Navarro: O brasileiro ainda é muito convencional no sexo? Tenho a impressão que sim. Convencional e, geralmente, machista.

Regina Navarro: Lelê: Nós estamos em pleno processo de transformação das mentalidades. Vamos encontrar pessoas convencionais e outras que já se liberaram dos preconceitos. Pela História, o sexo sempre foi um grande problema. Desde que o cristianismo, há dois mil anos, o sexo foi visto como algo sujo e feio. Temos que refletir sobre isso e tentar nos livrarmos da culpa e da ideia de que existe algo pecaminoso no sexo. Sexo é muito bom, faz bem pra saúde física e mental. Além de fazer parte da vida. Deve ser encarado como algo natural.

Gilberto fala para Regina Navarro: Boa Tarde Regina. Acredito que a saúde psíquica de um homem/mulher está diretamente ligada a um sexo de boa qualidade e gratificante. Qual é, na sua opinião, o fator mais importante que nos impede, em muitas situações e relacionamentos, de obter isso?

Regina Navarro: Gilberto: O sexo sempre foi muito reprimido. Os homens, geralmente, vão tensos para o sexo, preocupados com o desempenho, tentando provar que são machos. As mulheres foram criadas para mostrar que não gostam muito de sexo, para o homem não as considerar "galinhas". Aí ocorre um desencontro. Mas aos poucos as pessoas estão começando a se livrar desses valores ultrapassados que só servem para aprisioná-las. Quanto mais uma pessoa for livre para o sexo, mais ela vai poder trocar com o parceiro (a) e usufruir de todo o prazer que o sexo pode proporcionar.

Bruno_302 fala para Regina Navarro: É normal que a sociedade caminhe para uma vida bixexual?

Regina Navarro: Acredito que sim. Daqui a algumas décadas, não podemos precisar exatamente, é possível que a bissexualidade predomine.

Maria fala para Regina Navarro: Como as pessoas reagem quando falamos de relacionamento aberto e liberal no brasil?

Regina Navarro: Estamos no meio de um processo de grandes transformações das mentalidades. Então encontramos pessoas bem liberais e outras ainda preconceituosas, presas a antigos valores, que já estão ultrapassados. Muitos dizem que a sociedade não está ainda preparada para maiores liberdades. Mas na década de 1960, se vc dissesse que dentro de algumas décadas seria normal a moça não casar virgem, diriam a mesma coisa. Então é uma questão de tempo para todos aceitarem novas formas de pensar e viver.

Rhazeck pergunta para Regina Navarro: O sexo pode ser considerado uma pulsão de morte? em que ocasião?

Regina Navarro: Acho que o sexo é fonte de vida, é pulsão de vida. Reich, que foi discípulo do Freud, e viveu na primeira metade do século XX, dizia que a repressão da sexualidade é responsável pelas doenças psíquicas. Quanto mais livre o ser humano for no sexo, maior força para viver ele terá.

Mnn fala para Regina Navarro: o numero de homossexuais vem aumentando nos ultimos tempos...na sua opiniao, pq isso vem ocorrendo?

Regina Navarro: Não acho que o número de homossexuais vem aumentando. Acho que os homo estão saindo do armário. Acredito que o número de bissexuais, sim, vem aumentando e ainda vai aumentar mais. Isso ocorre por conta de uma liberação maior. Neste momento em que vivemos, cada um pode escolher sua forma de viver. Os modelos tradicionais não estão dando mais respostas e isso facilita tudo.

Ball fala para Regina Navarro: Porque os homens sentem necessidade de terem várias parceiras? Como conciliar esse "instinto" de infidelidade, quando sinceramente se quer que o casamento, como o conhecemos hoje, de certo??

Regina Navarro: Não acredito que seja a exclusividade sexual que faça um casamento funcionar bem. Todos, homens e mulheres, são afetados por vários estímulos vindos de outras pessoas. Por mais que vc ame seu parceiro (a) e tenha tesão por ele, muitos têm relações extraconjugais simplesmente pq variar é bom. Isso é natural. O problema é as pessoas acreditarem que se o outro transar fora do casamento é pq não ama seu cônjuge. Quando as pessoas se libertarem dessa crença de que exclusividade significa algo importante, vai ser muito mais fácil viver bem. A única pergunta que cada um deveria responder a si próprio é: me sinto amado (a)? Me sinto desejado (a)? Se a resposta for positiva, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito, não é da minha conta.

Tiago fala para Regina Navarro: depois do filme o virgem de 40 anos, inspirou uma revista a pesquisar sobre virgindade e vários norte americanos entre 25 a 45 anos assumriram a sua castidade, o que pessoas ligadas a essa área tem a dizer sobre esse assunto? é prejudicial a saúde a abstinência sexual??

Regina Navarro: Se a gente acredita no que dizem as pesquisas científicas, de que o sexo é fundamental para a saúde física e mental, temos que considerar a abstinência como algo negativo. A questão que a repressão da sexualidade sempre foi tão grande, que muita gente que opta pela abstinência não está fazendo uma escolha livre, e sim uma escolha condicionada pela culpa e pelo medo do sexo. Sexo é natural, faz parte da vida. No plano individual, cada um faz o que quiser com a sua vida, mas se pensarmos em termos de mentalidade, acho essa proposta bastante nociva.

Alana pergunta para Regina Navarro: Regina, a juventude atual da importancia demais ao sexo ou importancia de menos?

Regina Navarro: Todos os humanos dão muita importância ao sexo. Afinal, o orgasmo é o maior prazer físico que um ser humano pode experimentar. O sexo sempre foi tão reprimido que só agora as coisas estão começando a melhorar. Acho que a juventude está dando uma importância muito mais adequada ao sexo do que seus pais ou avós deram.

Belinha fala para Regina Navarro: Boa tarde! Ainda que a "sexualidade" e os afetos não se dissociem, você não acha que há grandes diferenças entre amor, paixão e tesão? Me parece que as pessoas fazem uma grande confusão entre os registros! Não?

Regina Navarro: Concordo com vc. Amor e tesão são coisas totalmente distintas. Vc pode amar uma pessoa e não ter tesão por ela. Pode ter um grande tesão por outra e não amá-la. É importante que as pessoas percebam essa distinção. Para os homens isso nunca foi problema. Eles podiam transar com qualquer mulher por quem sentissem desejo e eram atá valorizados por isso. Para as mulheres é que foi complicado. Criaram muitas histórias para fazê-las acreditar que o sexo só tinha graça se houvesse amor. Muitas até hoje acreditam nisso e se frustram.

Ch. fala para Regina Navarro: Regina, muitos teóricos do gênero e da sexualidade nos últimos anos reforçam a abordagem de que gênero e sexualidade são construidos histórica e socialmente. Vc acha que essas ideias muito fixas e construidas sobre gênero, sobre o que é ser homem e mulher, hetero ou homo, não são prejudiciais para as nossas relações sociais e afetivas? Devemos questionar e desconstruir essas noções?

Regina Navarro: Acredito que quase tudo o que somos é resultado de uma construção social. Nossos anseios, nosso comportamento...são muito diferentes em cada época. O amor na Grécia, por exemplo, era totalmente diferente do amor na Idade Média, que era diferente do século XIX e tb de hoje. Essa história de masculino e feminino só serviu para aprisionar ambos os sexos a estereótipos. Não acredito nessa divisão. Todos nós somos passivos e ativos, forte e fracos, medrosos e corajosos. Vai depender das características de personalidade de cada um e tb da época em que se vive. A fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo e isso é pré-condição para uma sociedade de parceria. Acredito que homens e mulheres vão viver muito melhor quando esses conceitos sairem de cena.

06 julho 2009

O Relógio do Mundo

A Persistência da Memória, de Salvador Dali, em 1931



Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda no relógio do mundo.

- Mário Quintana

08 junho 2009

A arte de não adoecer

Se não quiser adoecer - "Fale de seus sentimentos"

Emoções e sentimentos que são escondidos, reprimidos, acabam em doenças como: gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna. Com o tempo a repressão dos sentimentos degenera até em câncer. Então vamos desabafar, confidenciar, partilhar nossa intimidade, nossos segredos, nossos pecados. O diálogo, a fala, a palavra, é um poderoso remédio e excelente terapia.

Se não quiser adoecer - "Tome decisão"

A pessoa indecisa permanece na dúvida, na ansiedade, na angústia. A indecisão acumula problemas, preocupações, agressões. A história humana é feita de decisões. Para decidir é preciso saber renunciar, saber perder vantagem e valores para ganhar outros. As pessoas indecisas são vítimas de doenças nervosas, gástricas e problemas de pele.

Se não quiser adoecer - "Busque soluções"

Pessoas negativas não enxergam soluções e aumentam os problemas. Preferem a lamentação, a murmuração, o pessimismo. Melhor é acender o fósforo que lamentar a escuridão. Pequena é a abelha, mas produz o que de mais doce existe. Somos o que pensamos. O pensamento negativo gera energia negativa que se transforma em doença.

Se não quiser adoecer - "Não viva de aparências"

Quem esconde a realidade finge, faz pose, quer sempre dar a impressão que está bem, quer mostrar-se perfeito, bonzinho etc., está acumulando toneladas de peso... uma estátua de bronze, mas com pés de barro. Nada pior para a saúde que viver de aparências e fachadas. São pessoas com muito verniz e pouca raiz. Seu destino é a farmácia, o hospital, a dor.

Se não quiser adoecer - "Aceite-se"

A rejeição de si próprio, a ausência de auto-estima, faz com que sejamos algozes de nós mesmos. Ser eu mesmo é o núcleo de uma vida saudável. Os que não se aceitam são invejosos, ciumentos, imitadores, competitivos, destruidores. Aceitar-se, aceitar ser aceito, aceitar as críticas, é sabedoria, bom senso e terapia.

Se não quiser adoecer - "Confie"

Quem não confia, não se comunica, não se abre, não se relaciona, não cria liames profundos, não sabe fazer amizades verdadeiras. Sem confiança, não há relacionamento. A desconfiança é falta de fé em si, nos outros e em Deus.

Se não quiser adoecer - "Não viva sempre triste"

O bom humor, a risada, o lazer, a alegria, recuperam a saúde e trazem vida longa. A pessoa alegre tem o dom de alegrar o ambiente em que vive. "O bom humor nos salva das mãos do doutor". Alegria é saúde e terapia.

Dr. Dráuzio Varella

06 abril 2009

Supérfluo

Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está à mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e o de que é carente; tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e supérfluo amor.
Sócrates

15 março 2009

Até o vitorioso pode ser vencido pela vitória



Aconteceu na Polônia. Durante o “show de talentos” na televisão, chamado “So you think you can dance” [“Então você pensa que pode dançar”], a candidata Anna Kasprzak, após receber a nota 10 e passar para a próxima etapa do concurso, ficou tão contente, mas tão contente que, na comemoração, se jogou para fora do palco, caindo e se machucando. Eis aqui uma aula magistral sobre o conceito de divisão do sujeito – a grande descoberta de Freud. O que é a divisão do sujeito? É querermos fazer algo de um jeito e fazermos diferente do que pensamos, às vezes até ao contrário do que planejamos...sem querer. Em outras palavras, o sujeito que comemora a vitória não é o mesmo que cai. E, no entanto, ambos habitam o mesmo corpo. Logo, uma verdade se estabelece: há algo mais forte que a consciência, há algo que contraria a consciência, há algo que por mais que a consciência não queira, se impõe, predomina, derruba completamente a força de vontade. Sobre isso, Freud legou à humanidade uma das pesquisas mais belas de sua história. Se chama “Alguns Tipos de Caráter Elucidados pelo Trabalho Psicanalítico” (1916) e está publicado no volume 14 de suas Obras Completas. O segundo capítulo desse trabalho recebe o título de “Os que fracassam ao triunfar”. Magnífico! Se Freud só tivesse escrito isso, já seria gênio. Freud demonstra aí que não há nada mais perigoso para o ser humano do que o sucesso, do que a nota dez. Há no dez uma idéia de completude, uma idéia de nada mais faltar – ora, nada mais faltar é o que caracteriza justamente...a morte. Por outro lado, nessa pesquisa Freud começa a investigar o que mais tarde vai chamar de “supereu”, ou seja, uma instância psíquica, um lugar psíquico presente no discurso de cada um – repito, no discurso, na fala de cada um e não, como acreditam os neurologistas, em algum lugar do cérebro. Por exemplo, eu tenho certeza que irão submeter Anna a uma série de tomografias e exames de sangue e que os resultados darão...negativo. Brincando com a história da psicanálise, o resultado será Anna O...negativo! Uma das funções do supereu é medir constantemente o sujeito, é verificar o quanto ele se aproxima ou se distancia do “ideal”. O paradoxal é que mesmo quando o sujeito supostamente chega lá...no ideal, o “supereu” não se satisfaz e exige mais – tendo esse “mais”muitas vezes a característica de uma punição, de um castigo, como esse de Anna. É isso que levou Lacan a denominar essa característica de “face feroz e obscena do supereu”, ao exigir do sujeito o gozo. Gozo, não o prazer. A Anna que tem prazer com o resultado do teste não é a mesma Anna que goza se jogando no abismo. O gozo é aquilo que está além do prazer, o contraria, é mesmo o avesso do prazer.
Leonardo Ferrari

24 fevereiro 2009

Eu puxo o seu cabelo... ... Faço o que você gosta ... ...

Música estimula vida sexual dos jovens, diz estudo

Um estudo conduzido por pesquisadores americanos sugere que adolescentes que escutam músicas de conteúdo sexual depreciativo têm uma vida sexual mais ativa.

A equipe da Universidade de Pittsburgh entrevistou 711 jovens dos 13 aos 18 anos de idade sobre suas vidas sexuais e hábitos musicais.

Eles perceberam que os que ouviam músicas com versos sobre sexo explícito e agressivo regularmente, cerca de 17 horas por semana, tinham o dobro das chances de fazer mais sexo do que os que ouviam músicas apenas 2,7 horas no mesmo período.

Os especialistas classificaram como letras vulgares as que descrevem o sexo como um ato puramente físico e relacionado a relações de poder, diz o estudo divulgado na publicação especializada " American Journal of Preventive Medicine".

BBC Brasil

12 fevereiro 2009

Monogamia

Monogamia para iniciantes - Capítulo I do livro O Mito da Monogamia

Certa vez a antropóloga Margaret Mead sugeriu que a monogamia é o mais difícil de todos os arranjos conjugais humanos. É também um dos mais raros. Mesmo casais fiéis e há muito casados são novatos na monogamia, quer percebam ou não. Ao tentarem manter um vínculo social e sexual que consista exclusivamente em um homem e uma mulher, os aspirantes a monógamos estão contrariando algumas das inclinações evolutivas mais profundas com as quais a biologia desenvolveu a maioria das criaturas, inclusive o Homo sapiens. Como veremos, há fortes evidências de que os seres humanos não são "naturalmente" monógamos, bem como há provas de que muitos animais, que antes acreditávamos serem monógamos, não o são. Certamente, os seres humanos podem ser monógamos (e esta questão é completamente diferente de devem ser), mas não há dúvida: a monogamia é incomum - e difícil.

Como observou certa vez G. K. Chesterton sobre o cristianismo, o ideal de monogamia não foi tão testado para que possa ser considerado insatisfatório; em vez disso, foi considerado difícil e com freqüência não foi sequer tentado. Ou, pelo menos, não por muito tempo.

A culpa - se é que há alguma - está menos na sociedade do que em nós mesmos e em nossa biologia. Assim, a monogamia foi prescrita para a maioria de nós pela sociedade americana e pela tradição ocidental de modo geral; as regras oficialmente declaradas são bem claras. Devemos conduzir nossa vida romântica e sexual em pares exclusivos, no campo matrimonial designado. Mas, como no futebol, algumas pessoas saem dos limites. E não é incomum que se marque um pênalti se um juiz detecta uma violação. Para muitas pessoas, monogamia e moralidade são sinônimos. O casamento é a sanção definitiva e desviar-se da monogamia conjugal é o pecado interpessoal definitivo. Nas palavras ácidas de George Bernard Shaw: "A moralidade consiste em suspeitar de quem não é legalmente casado."

Ironicamente, porém, a monogamia em si não é nem de longe tão desagradável quanto as conseqüências de se afastar dela, mesmo que, em muitos casos, ninguém descubra. Deixando de lado os escrúpulos religiosos, a angústia da transgressão pessoal pode ser intensa (pelo menos em grande parte do mundo ocidental), e aqueles especialmente imbuídos do mito da monogamia em geral se vêem tomados de culpa, condenados, como os personagens de um conto moral puritano, a mourejar eterna e inutilmente com suas almas maculadas de adultério, com freqüência acreditando que sua transgressão não só é imperdoável como também não é natural. Para muitos outros - provavelmente a maioria - há muito arrependimento e culpa em simplesmente sentir desejo sexual por alguém que não seja o cônjuge, mesmo que esses sentimentos nunca sejam postos em prática. (...)

Se essas inclinações são equivocadas é uma questão difícil e talvez impossível de se responder. Mas, como veremos, graças aos recentes desenvolvimentos na biologia da evolução, combinados com a mais recente tecnologia, simplesmente não há nenhuma dúvida de que o desejo sexual por múltiplos parceiros é "natural". Ele é. Da mesma forma, simplesmente não há nenhuma dúvida de que a monogamia é "natural". Ela não é.

Os conservadores sociais preferem assinalar o que vêem como uma ameaça crescente aos "valores familiares". Mas eles não têm a mais vaga idéia de como essa ameaça é realmente grande ou de onde ela vem. A família monógama está definitivamente sitiada, e não pelo governo nem pelo declínio da fibra moral, e certamente não por uma ampla campanha homossexual... mas pelos ditames da própria biologia. Os infantes têm a sua infância. E os adultos? O adultério.

Se, como certa vez observou Ezra Pound (de certo modo em causa própria), os artistas são a "antena da raça", essas antenas há muito vêm se crispando com os casos extraconjugais. Se a literatura é um reflexo das preocupações humanas, então a infidelidade tem sido uma das preocupações mais compulsórias da humanidade, muito antes de os biólogos terem alguma coisa a dizer a respeito disso. A primeira grande obra da literatura ocidental, a Ilíada, de Homero, conta as conseqüências do adultério: a face de Helena lançou mil barcos e mudou o rumo da história somente depois de ter se iniciado um caso entre Helena, uma mulher casada e rainha grega, e Páris, filho do rei Príamo de Tróia. Helena em seguida deixou o marido Menelau, precipitando assim a guerra de Tróia. E na Odisséia tomamos conhecimento da volta de Ulisses daquela guerra, na qual ele matou praticamente um exército de pretendentes, cada um deles tentando seduzir sua fiel esposa, Penélope. (Aliás, o próprio Ulisses tinha se divertido com Circe, a feiticeira, mas nem por isso foi considerado adúltero. O padrão duplo é antigo e, por definição, injusto; e, no entanto, também tem sua base na biologia.)

Parece que toda grande tradição literária, pelo menos no mundo ocidental, acha especialmente fascinante explorar os fracassos da monogamia: Anna Karenina, de Tolstoi, Madame Bovary, de Flaubert, O amante de Lady Chatterley, de Lawrence, A letra escarlate, de Hawthorne, A taça dourada, de Henry James. Mais recentemente, os romances de casamento de John Updike - para não falar de montes de novelas de TV e filmes - descrevem uma sucessão de casos suburbanos de classe média. Este livro, ao contrário, não é de ficção. E não está preocupado com os casos em si, mas com os sustentáculos biológicos dos casos, em seres humanos e em outros animais. Mais precisamente, trata do que os estudos mais recentes têm revelado sobre as bases biológicas surpreendentemente fracas da monogamia.

(...)

Neste livro, nos preocuparemos com um leque de seres vivos, em parte porque cada um deles é digno de compreensão e também devido à luz que eles podem lançar sobre nós mesmos. Não nos entenda mal: não se argumentará que os marsupiais de focinho peludo mostram um determinado padrão sexual que as pessoas também demonstram. Argumentos desse tipo são absurdamente ingênuos, no mínimo porque há uma extraordinária variedade no mundo animal. Entre as chamadas espécies de aves que utilizam leks (arenas de reprodução), por exemplo, os machos reúnem-se em um trecho cerimonial do chão, e cada macho defende um pequeno território; em seguida, muitas fêmeas diferentes se acasalam preferencialmente com um daqueles machos, em geral o que ocupa o lek mais central e cujas exibições são especialmente intensas. (Aqui não há ligação de par.) E existem os chimpanzés pigmeus, também conhecidos como bonobos, que se envolvem no que parece ser uma maratona sexual liberada a todos. Novamente, não se vê nada semelhante à monogamia... e esses são nossos parentes animais mais próximos.

Por outro lado, há casos de parceria social e sexual de toda uma vida que poderiam fazer vacilar os defensores mais ferrenhos do vínculo macho-fêmea íntimo, intenso e totalmente fiel: não são muitos os seres vivos que participam, por exemplo, da monogamia extrema demonstrada pelo verme Diplozoon paradoxum, um parasita de peixes cujos parceiros se encontram enquanto são larvas adolescentes virgens, momento em que literalmente se fundem pelo meio do corpo e em seguida tornam-se sexualmente maduros; eles então permanecem "juntos" (em qualquer sentido da palavra) até que a morte os separe - em alguns casos, anos depois disso. Os exemplos citados vão de aves a mamíferos e invertebrados. E, no entanto, não está totalmente claro o que é mais "relevante" para os seres humanos. Se por relevante quisermos dizer que proporciona um modelo ou - pior ainda - um conjunto de regras ou algum tipo de premonição evolutiva para nosso "eu mais profundo", a resposta deve ser uma só: nenhum. Mas, ao mesmo tempo, cada um deles é relevante a sua própria maneira. Não só toda espécie animal lança sua luz singular sobre as possibilidades da vida, como cada uma delas também ajuda a iluminar um aspecto de nós mesmos.

Para a maioria dos leigos, há um viés compreensível em relação aos mamíferos, em especial os primatas. Mas embora a vida de chimpanzés, gorilas, gibões e orangotangos seja fascinante e pitoresca (especialmente os bonobos altamente sexuados, sobre os quais falaremos mais adiante), a verdade é que, quando se trata de semelhança entre a vida dos animais e dos seres humanos, estes incríveis macacos antropomorfos não são assim tão incríveis. As aves - pelo menos algumas espécies - nos informam muito mais.

Isto porque não estamos procurando antecedentes históricos diretos, mas semelhanças baseadas em circunstâncias similares. Em quase todos os mamíferos, inclusive na maioria dos primatas, não aparece a monogamia. Nem os cuidados masculinos com os jovens. Já as aves, embora nem de longe tão monógamas como se pensava antigamente, pelo menos tendem a esse sentido. (Podemos dizer o mesmo dos seres humanos.) E não apenas isso, mas a monogamia social - ao contrário da monogamia genética - tem uma forte correlação com o envolvimento dos pais e das mães na criação dos filhos, uma situação que é comum em aves e muito incomum entre mamíferos, a não ser pelo primata mais semelhante às aves, o Homo sapiens.

Neste livro, não vamos nos concentrar especialmente nos mamíferos (a não ser em nós mesmos). Quando se trata de dispersar o mito da monogamia, a maior parte das descobertas realmente úteis nos últimos anos vem da pesquisa feita por ornitólogos, que, é interessante observar, têm voltado grande parte de sua atenção para as espécies "políginas" (nas quais o arranjo de acasalamento típico acontece entre um macho e muitas fêmeas) ou "poliândricas" (uma fêmea e muitos machos). Só recentemente eles voltaram a atenção para a monogamia, descobrindo que ela é mais um mito do que uma realidade.

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O que aconteceu foi o que se segue. Durante a década de 1930, E. F. Knipling, um entomologista do Departamento de Agricultura dos EUA com idéias de vanguarda, pode ter sentido que os meios "naturais" (isto é, sem inseticidas) de controle de insetos indesejados seriam superiores ao uso disseminado de venenos. De qualquer forma, ele começou a explorar uma técnica promissora: introduzir na natureza machos estéreis de mosca-varejeira, poderiam acasalar com fêmeas selvagens da mosca, cuja descendência não iria se materializar. Funcionou, tornando-se por algum tempo uma das maiores histórias de sucesso do ambientalismo pós-Rachel Carson. Na década de 1960, os machos de mosca-varejeira foram expostos a cobalto radiativo em tanques, e depois disso os insetos eunucos foram lançados pelo ar em uma ampla região junto à fronteira do México com os Estados Unidos. Esta técnica conseguiu eliminar o flagelo da mosca-varejeira C. hominivorax. Porém, o resultado nunca foi reproduzido. Revelou-se que a opção de Knipling por uma espécie-alvo foi feliz (ou cientificamente inspirada): as moscas-varejeiras fêmeas são estritamente monógamas. Ao contrário, sabemos agora que, para quase todos os insetos, uma transa não é suficiente: as fêmeas em geral acasalam-se com mais de um macho, assim, mesmo quando são inundadas por uma tempestade de machos estéreis, é preciso apenas um pequeno número de insetos intatos para que a reprodução prossiga normalmente. E assim a "técnica do macho estéril", apesar de todo o seu apelo ecológico e antipesticidas, não chegou a lugar nenhum.

Ao mesmo tempo, as portas estavam abertas para um insight surpreendente - de que o acasalamento múltiplo é comum na natureza. E aqui está a questão essencial: o acasalamento múltiplo não se refere apenas à conhecida tendência dos machos de procurar várias parceiras sexuais, mas também às fêmeas. Provavelmente o primeiro biólogo moderno a chamar a atenção para esse fenômeno e a reconhecer sua importância foi o britânico ecologista do comportamento Geoffrey A. Parker. Em 1970, no que pode ser verdadeiramente chamado de artigo seminal, Parker escreveu sobre a "Competição Espermática e Suas Conseqüências Evolutivas nos Insetos". De um só golpe, uma nova idéia havia nascido (ou, pelo menos, fora reconhecida). Trata-se de um conceito realmente simples, na verdade um resultado direto do acasalamento múltiplo: em geral os espermatozóides de mais de um macho competirão para fertilizar os ovos de uma fêmea. A competição espermática não se limita, de maneira alguma, aos insetos; encontraram-se exemplos em quase todos os grupos animais... inclusive entre os seres humanos.

David Barash e Judith Eve Lipton

11 fevereiro 2009

Divertimentos

Você ouviu tantas vezes que sexo é pecado, que sempre que você faz amor, esse condicionamento imediatamente surge entre você e sua amante. Você começa a sentir-se culpado e sério. Você está fazendo algo contra todos os grandes religiosos do mundo.

Você está sozinho, um ser humano minúsculo, pequeno e você está contra a história inteira de milhares de profetas e messias de todos os lugares, de todas as nações. Naturalmente você se torna sério e sua seriedade faz você sentir-se morto. Seriedade pertence aos mortos. Você já viu algum morto rindo? Ou mesmo sorrindo? O riso pertence a vida; seriedade é parte da morte.

A pessoa viva é sempre brincalhona, não séria. E porque eu digo que fazer amor não é outra coisa senão diversão... lhe disseram que é pecado e eu estou lhe dizendo que é diversão. A diferença é tamanha que você fica perplexo. Não é pecado, se fosse pecado, a existência o teria criado sem suas genitálias. Qual era a necessidade? A natureza encontraria algum outro modo de produzir crianças.

A existência não é contra o sexo. Você precisa estar cônscio do fato de que isso não é só com relação a humanidade...

Os pássaros, os animais, toda a existência depende do sexo para dar nascimento à vida.
É por isso que digo que sexo é brincadeira, é divertimento. Você não pode aceitar a idéia de diversão devido ao seu condicionamento de que é um pecado. Isso é um salto quântico do pecado para a diversão! Mas que posso fazer? Sexo é divertimento.

Osho - From Death to Deathlessness

09 fevereiro 2009

A Fidelidade é uma virtude facultativa

Monogamia - Monotonia?

A monogamia é uma raridade entre a maioria dos animais. Não é diferente com o homo sapiens. Ou você nunca pensou em trair, bicho?

Sem ela, as novelas não teriam a menor graça – ou seriam muito menos apimentadas. Pense nas milhares de letras de tango e de bolero, nas canções cheias de dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues (nas quais o poeta Augusto de Campos detectou o "sentimento da cornitude"), no romantismo descabelado e crespo de Reginaldo Rossi. Ela aparece em toneladas de filmes, romances, peças de teatro, poemas. Ocupa grande parte das conversas entre vizinhos, amigos e colegas de trabalho. E pode estar dentro de você.

Ela? A infidelidade. Num livro recentemente publicado nos Estados Unidos, o psicólogo David Barash e a psiquiatra Judith Eve Lipton dedicam-se a destruir um mito laboriosamente erigido pela cultura humana: a monogamia. Escrito com enorme graça e fluência, The Myth of Monogamy: Fidelity and Infidelity in Animals and People ("O mito da monogamia: fidelidade e infidelidade em animais e pessoas", ainda inédito no Brasil) é uma bordoada erudita na propalada idéia de que homens e mulheres seriam naturalmente predispostos a viver juntos (sem escapadas) até que a morte os separe. Barash e Lipton mostram que são outras coisas – bem distantes de coloridas certidões de casamento e de funestos atestados de óbito – que costumam unir ou desunir casais.

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Barash e Lipton afirmam que, entre humanos, a monogamia é um mingau fervido com muitas doses de preceitos religiosos (catolicismo a granel), um bocado de pragmatismo econômico (como a necessidade de regular o direito à propriedade privada) e um toque de ingredientes sociais (reconhecimento da prole). E – claro – um punhado de comodismo. "Não é todo mundo que está disposto a freqüentar o instável e arriscado mercado de encontros", explicam os autores. Mais: que, além desses fatores, monogamia existiria única e exclusivamente devido ao empenho isolado e contínuo de cada casal. "O mais poderoso mito que envolve a monogamia é aquele que diz que, ao encontrarmos o amor das nossas vidas, nos dedicaríamos inteiramente a ele", afirma Barash. "A biologia mostra que há um lado irracional e animal no comportamento humano."

A sociedade cria freios para tolher esse "lado irracional", dizem Barash e Lipton. A condenação do adultério pelo sexto mandamento é um exemplo disso. No entanto, a Bíblia contém vários personagens que pulavam a cerca. Consta que o rei Davi mantinha seis esposas e Salomão era notório por suas 700 esposas e mais de 300 concubinas. O imperativo da monogamia, mostram os autores, surge quando as sociedades passam por processos de normatização, como criação de propriedade privada e toda a legislação ligada ao direito de herança e sucessão. O que não quer dizer que isso tenha ocorrido em todas as culturas humanas. Muitas delas, ao contrário, parecem estimular a parceria múltipla.

É o caso da seguinte história, exemplar sobre diferenças culturais. No final do século XIX, um provecto bispo britânico da Igreja anglicana visitava uma aldeia maori nos grotões mais recônditos da Nova Zelândia. Os aborígenes, contentes com a visita, promoveram grandes festividades. A certa altura, um desavisado "cacique", querendo demonstrar hospitalidade, irrompeu em altos brados: "Uma mulher para o bispo!" Pois bem. Vendo a reação de contrariedade no rosto do prelado, o líder maori, sem pestanejar, ordenou: "Duas mulheres para o bispo!"

Desnecessário dizer que, entre os maori, a fidelidade é (como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, especialista em iluminar as zonas mais esconsas da personalidade humana) uma "virtude facultativa". Como os nativos neozelandeses, a maioria das espécies animais, assim como muitos outros agrupamentos humanos e indivíduos em geral, não são monogâmicos nem inclinados nesta direção. Segundo Barash e Lipton, o fato de não ocorrer monogamia na natureza (e de os machos serem tão volúveis e vorazes em seus apetites sexuais) pode ser explicado por uma contabilidade evolutiva. Esperma é barato, óvulos são caros. Melhor dizendo: um macho normal de qualquer espécie produz milhares de espermatozóides todos os dias e está sempre à disposição para novos intercursos sexuais, ao passo que as fêmeas ovulam bem menos e – em caso de fecundação – têm que arcar com um grande número de responsabilidades, que os pesquisadores costumam qualificar com a expressão "investimento parental".

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Um bocado de gente, como Trivers, acredita que humanos são menos inclinados ao investimento parental que outros animais, o que os tornaria mais propensos à poligamia do que outras espécies. Devido ao seu baixo investimento parental, os machos tendem à volúpia e à variedade – quanto mais, melhor. E existe até um termo capcioso cunhado pelos cientistas, o chamado "efeito Coolidge", inspirado numa passagem da vida de Calvin Coolidge (1872-1933), o trigésimo presidente dos Estados Unidos.

A história conta que o presidente Coolidge e sua mulher visitavam separados uma fazenda modelo no interior dos EUA. Quando o presidente vistoriava o galinheiro, reparou num galo solitário em meio a dezenas de galinhas. Então, o guia observou:

A senhora Coolidge pediu-me para mostrar ao senhor que este galo pode copular várias vezes ao dia.

Sempre com a mesma galinha? – perguntou o presidente.

Não, senhor.

Por favor, então mostre isso à senhora Coolidge! – teria exclamado o presidente.

Verdade ou não, o enredo da anedota que gerou o "efeito Coolidge" pode ser melhor observado em laboratório. A freqüência sexual de um hamster macho declina rapidamente quando ele dispõe de apenas uma fêmea; torna-se lento, pouco receptivo, entediado. Porém, quando se introduz mais uma fêmea no pedaço, ele volta a apresentar apetite sexual. (Alguém aí se identificou com o ratinho?)

Variedade é a palavra de ordem na natureza. A pesquisadora Regina Macedo, do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, estuda o comportamento sexual das aves brasileiras. Diz que, embora as aves apresentem aquilo que os biólogos chamam de "monogamia social" (ou seja, macho une-se à fêmea durante a estação reprodutiva, constrói o ninho e ajuda na criação dos filhotes), não dá para colocar a mão no fogo pelos bicudos. "Não existe evidência de que todo acasalamento é estritamente monogâmico", afirma Regina. "Às vezes ocorrem cópulas extra-par, que podem gerar filhotes que não pertencem ao macho do casal."

O papel de priapo cafajeste geralmente cabe aos machos. "Claro que mulheres podem trair, mas homens dispõem de muito mais opções", explica David Barash. Tanto que, na maioria das espécies, o que há é a prática da poliginia (o popular harém), ao passo que a poliandria (uma fêmea com muitos machos) costuma ser associada a desvio sexual. "Os homens aceitam muito mais sexo casual do que as mulheres", afirma o psicólogo Ailton Amélio da Silva, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. "E onde há monogamia há traição."

E por que simplesmente as mulheres não se dedicam à prática monogâmica? Afinal, em se tratando de humanos, não dá para reduzir a discussão a critérios biológicos. Há entre nós fatores mais complexos, como o amor. "Mulheres preferem esperar e escolher", explica Barash. Por isso é que às mulheres pode ser atribuída a tarefa de uma seleção mais rigorosa dos parceiros, o que depura a espécie e garante a plena sobrevivência de uma linhagem saudável.

Ao contrário dos homens, cuja estratégia evolutiva é dispersar o sêmen mundo afora, as mulheres optaram por ser objetos de disputa (o que não quer dizer que sejam adeptas da monogamia). Não é à toa que, no vasto mundo animal, é o macho que dispõe de "armas" (penas coloridas, grandes chifres, músculos cultivados em academia), todas surgidas da competição e dos rituais de corte entre machos e fêmeas.

O que nenhuma explicação científica parece dar conta é do componente fundamental de toda relação humana: o amor. Sentimentalismos (e biologia) à parte, é o amor que sedimenta o envolvimento entre dois humanos que se gostam. O amor pode até ser uma invenção cultural – assim como a própria monogamia entre muitas sociedades –, mas o homo sapiens é formado por um feixe de elementos culturais.

"A monogamia é o mais difícil dos arranjos maritais entre humanos", escreveu a antropóloga americana Margaret Mead. A favor da fidelidade conjugal, o máximo que os cientistas conseguiram catalogar até o momento é o caso exemplar do parasita de peixe Diplozoon paradoxum: ele encontra uma larva virgem e se funde a ela. Permanecem juntos para sempre. Até que a morte os separe.

Leandro Sarmatz - Superinteressante