Quem quer que esteja lutando pela
preservação da vida e pela proteção das crianças deve necessariamente opor-se
aos correligionários tanto de direita quanto de esquerda. Não porque os
fascitas de vermelho, à semelhança dos fascistas de direita no apogeu, tenham
uma ideologia assassina, mas porque transformam crianças vivas e saudáveis em
inválidos, em aleijados e idiotas morais; porque exaltam o Estado mais do que
justiça, a mentira mais do que a verdade e a guerra mais do que a vida; porque
as crianças e a preservação da força vital que existe nelas são a única
esperança que nos resta. Um educador e médico conhece apenas uma lealdade: à
força vital na criança e no paciente. Se for fiel a essa lealdade, ele
encontrará respostas simples para seus problemas políticos.
Wilhelm Reich – Escute, Zé-Ninguém
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09 novembro 2012
29 outubro 2012
Um Sorriso
O trecho abaixo foi retirado da mais famosa obra de F. S. Fitzgerald. Conheci Fitzgerald através de um filme, "Meia Noite Em Paris", de Woody Allen. Tal filme, assisti com alguém realmente especial. A mulher que deveria ocupar um espaço único e nunca mais sair. Ela está longe agora, e não há sorrisos sem ela. Por isso, o texto abaixo é utópico. É uma busca, um sorriso compreensivo, apaziguador. E ela sabe, no fundo, que um sorriso assim só pode vir dela. Quem sabe amanhã, quem sabe um dia, se ela voltar a sorrir, o sol volte a brilhar para nós dois.
"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar."
"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar."
O Grande Gatsby, pg. 44 - Francis Scott Fitzgerald
26 outubro 2012
As Coisas que Chamamos de Amor
"Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam essas duas palavras em
nós! - e poderia, no entanto, ser o mesmo impulso que recebe dois nomes;
uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem, nos quais ele
alcançou alguma calma e que temem por sua 'posse'; a outra vez do ponto
de vista dos insatisfeitos, sedentos, e por isso glorificado como 'bom'.
Nosso amor ao próximo - não é ele uma ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e toda ânsia por novidades?
Pouco a pouco nos enfadamos do que é velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a mais bela paisagem não estará certa do nosso amor, após passarmos três meses nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando algo novo em nós mesmos - precisamente a isto chamamos possuir.
Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo.
(Pode-se também sofrer da demasia - também o desejo de jogar fora, de distribuir; pode ter o honrado nome de "amor".)
Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o que faz o homem benfazejo e compassivo, que também chama de "amor" ao desejo de uma nova posse que nele é avivado, e que nela tem prazer semelhante ao de uma nova conquista iminente.
Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional tanto sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável.
Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o mais implcacável e egoísta dos 'conquistadores' e exploradores; se considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente, pálido, sem valor; e que ele se acha disposto a fazer qualquer sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo.
Nisso, evidentemente, o uso lingüístico foi determinado pelos que não possuíam e desejavam - os quais sempre foram em maior número, provavelmente. Aqueles que nesse campo tiveram posses e satisfação bastante deixaram escapar, aqui e ali, uma palavra sobre o 'demônio furioso', como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses, Sófocles: mas Eros sempre riu desses blasfemos - eram, invariavelmente, os seus grandes favoritos.
- Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade."
Friedrich Nietzsche - 100 Aforismos sobre amor e morte
Nosso amor ao próximo - não é ele uma ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e toda ânsia por novidades?
Pouco a pouco nos enfadamos do que é velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a mais bela paisagem não estará certa do nosso amor, após passarmos três meses nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando algo novo em nós mesmos - precisamente a isto chamamos possuir.
Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo.
(Pode-se também sofrer da demasia - também o desejo de jogar fora, de distribuir; pode ter o honrado nome de "amor".)
Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o que faz o homem benfazejo e compassivo, que também chama de "amor" ao desejo de uma nova posse que nele é avivado, e que nela tem prazer semelhante ao de uma nova conquista iminente.
Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional tanto sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável.
Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o mais implcacável e egoísta dos 'conquistadores' e exploradores; se considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente, pálido, sem valor; e que ele se acha disposto a fazer qualquer sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo.
Nisso, evidentemente, o uso lingüístico foi determinado pelos que não possuíam e desejavam - os quais sempre foram em maior número, provavelmente. Aqueles que nesse campo tiveram posses e satisfação bastante deixaram escapar, aqui e ali, uma palavra sobre o 'demônio furioso', como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses, Sófocles: mas Eros sempre riu desses blasfemos - eram, invariavelmente, os seus grandes favoritos.
- Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade."
11 junho 2011
Amigos
Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos. Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental. Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família. E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada. Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica?Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos. Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa, de repente sabemos até de uma fofoca sobre eles, mas amigos? Nem perto. Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.Amizade não é só empatia, é cultivo. Exige tempo, disposição. E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo.As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor - tem que haver alguma razão prática ou festiva para fazer contato. Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade, basta tirar a razão de cena. Você não precisa de uma razão. Basta sentir a falta da pessoa. E, estando juntos, tratarem-se bem.Difícil exemplificar o que é tratar bem. Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio. Não é preciso trocar elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente. Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia?Acho que é amor. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno. E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços - mas liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entraram na sua vida, não deixe que sumam.Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção. Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante, sem precisar que a gente dê uma mãozinha. E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem doisamigos pra valer. E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas. Nada disso. A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso.
Martha Medeiros
10 maio 2011
16 dezembro 2010
Pouco Muito
.
Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos.
W. Shakespiere
Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos.
W. Shakespiere
11 novembro 2010
Repetição
A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão...
Sigmund Freud
03 novembro 2010
José e Pilar
Nos cinemas do Brasil, nessa sexta-feira, mais um pouco de Saramago. É a estréia de José & Pilar, documentário produzido por Miguel Gonçalves Mendes sobre a relação do escritor português com sua esposa.
Certamente, boa dose de poesia, literatura e inteligência por poucos reais.
Certamente, boa dose de poesia, literatura e inteligência por poucos reais.
10 outubro 2010
Sossego
Sossegue coração
ainda não é agora.
A confusão prossegue
sonhos afora
Calma, calma
logo mais a gente goza.
Perto do osso
a carne é mais gostosa.
Paulo Leminsky
08 outubro 2010
Nu
Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...
Manuel Bandeira
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...
Manuel Bandeira
06 outubro 2010
O Amor é um estado de consciência
O amor é um estado da consciência em que você está alegre, em que o seu ser dança de alegria. É algo que vibra, se irradia a partir do seu centro; algo que pulsa ao seu redor. O amor atinge todas as pessoas: pode atingir mulheres, homens, assim como pode atingir pedras, árvores e estrelas.
Quando falo de amor, estou falando desse amor: um amor que não é um relacionamento mas um estado de ser. Lembre-se: sempre que eu uso a palavra "amor", eu a uso como um estado de ser, não como um relacionamento. Relacionamento é apenas um aspecto muito pequeno do amor.
Quando falo de amor, estou falando desse amor: um amor que não é um relacionamento mas um estado de ser. Lembre-se: sempre que eu uso a palavra "amor", eu a uso como um estado de ser, não como um relacionamento. Relacionamento é apenas um aspecto muito pequeno do amor.
Osho, em Intimidade
04 outubro 2010
Alimento da Alma
É triste que tenhamos de fazer esta pergunta. No curso natural das coisas, todos saberiam o que é amor. Mas entendo que ninguém saiba - ou apenas muito raramente - o que é amor. O amor tornou-se uma das mais raras experiências. Sim, fala-se sobre ele, filma-se, estórias são escritas sobre ele, canções são compostas, filmes são feitos, na televisão você o verá, no rádio, nas revistas - uma grande indústria continuamente o supre com a idéia do que é o amor. Muitas pessoas estão continuamente envolvidas nisso, ajudando as pessoas a entenderem o que é o amor. Poetas, autores, novelistas - todos eles continuam.
Mas ainda assim o amor permanece um fenômeno desconhecido. E deveria ser um dos mais conhecidos. É quase como se alguém viesse e perguntasse: "O que é comida?" Você não ficaria surpreso se viesse alguém é perguntasse: "O que é comida?" Se alguém tem passado fome desde o início e nunca experimentou comida, a pergunta será relevante. Assim é esta pergunta. Você pergunta: "O que é amor?"
Amor é o alimento da alma. Mas você tem passado fome. Sua alma não recebeu nenhum amor, por isso você não lhe conhece o sabor. Sua pergunta é relevante, mas é infeliz. O corpo recebeu alimento, por isso ele continua; mas a alma não recebeu nqualquer alimento, por isso a alma está morta, ou não nasceu ainda, ou está desde sempre em seu leito de morte.
Mas ainda assim o amor permanece um fenômeno desconhecido. E deveria ser um dos mais conhecidos. É quase como se alguém viesse e perguntasse: "O que é comida?" Você não ficaria surpreso se viesse alguém é perguntasse: "O que é comida?" Se alguém tem passado fome desde o início e nunca experimentou comida, a pergunta será relevante. Assim é esta pergunta. Você pergunta: "O que é amor?"
Amor é o alimento da alma. Mas você tem passado fome. Sua alma não recebeu nenhum amor, por isso você não lhe conhece o sabor. Sua pergunta é relevante, mas é infeliz. O corpo recebeu alimento, por isso ele continua; mas a alma não recebeu nqualquer alimento, por isso a alma está morta, ou não nasceu ainda, ou está desde sempre em seu leito de morte.
Osho, em Sufis, o Povo do Caminho
29 setembro 2010
Não-possessividade
Se toda a existência é una e se a existência toma conta das árvores, dos animais, das montanhas, dos oceanos, da menor folha de grama à maior estrela, então também tomará conta de você.
Porque ser possessivo? A possessividade mostra simplesmente uma coisa, que você não pode confiar na existência. Você tem que ter um seguro só para você, segurança para você, não para o outro; você não consegue confiar na sua existência.
Não-possessividade significa basicamente confiar na existência. Não há nenhuma necessidade de possuir, porque o todo já é nosso.
Osho
Porque ser possessivo? A possessividade mostra simplesmente uma coisa, que você não pode confiar na existência. Você tem que ter um seguro só para você, segurança para você, não para o outro; você não consegue confiar na sua existência.
Não-possessividade significa basicamente confiar na existência. Não há nenhuma necessidade de possuir, porque o todo já é nosso.
Osho
19 agosto 2010
NÃO, NÃO TEM!
Aí Tem
As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.
Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.
Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.
Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.
Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?
É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.
Martha Medeiros
As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.
Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.
Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.
Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.
Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?
É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.
Martha Medeiros
09 agosto 2010
DOSTOIÉVSKI, OBRIGADO

Para os incrédulos na instituição, ou na religião institucionalizada, mas que, diferentemente dos ateus, crêem em algo maior, mais forte, num Deus ou Energia, postamos um trecho retirado do livro 'O Idiota', de Dostoiévski, onde o personagem principal, o príncipe Míchkin, acusa o catolicismo de anticristão, não sem criticar o ateísmo também. Aí vai sua opinião sobre o catolicismo:
- Primeiramente é uma religião anticristã (…) – Em segundo lugar, o catolicismo é até pior do que o ateísmo, na minha opinião. Sim, esta é a minha opinião. O ateísmo apenas nega, ao passo que o catolicismo falseia o Cristo, calunia, difama e se opõe ao Cristo. Prega o anticristo! Declaro e assevero que prega o anticristo. Esta é a convicção a que cheguei e que me atribulou. O catolicismo romano não consegue sustentar a sua posição sem uma política universal de supremacia e exclama “Non possumus!” (não podemos!*). Assim, a meu ver, nem religião é, mas tão somente uma espécie de tentativa de continuação do Império Romano Ocidental; e tudo nela está subordinado a esta idéia, começando mesmo pela fé. O Papa se apoderou da terra, seu trono terrestre, e empunhou o gládio. Desde então tudo continuou da forma antiga, sendo que à espada, ao gládio, eles juntaram a mentira, a fraude, o embuste, o fanatismo, a superstição e a vilania. Divertiram-se com os mais santos, mais sinceros e mais ferventes sentimentos do povo. Trocaram tudo, tudo, pelo dinheiro, pela vil força terrena. E não é justamente isso que ensina o Anticristo? Como poderia o ateísmo deixar de provir dele? O ateísmo emergiu do próprio catolicismo romano! Este gerou aquele. Começou pelos seus adeptos: poderiam eles crer em si próprios! Um se fortaleceu com a reação contra o outro. Um se fortaleceu contra o outro. Um foi procriado pela mentira e pela incapacidade espiritual do outro. Ateísmo! Entre nós são só as chamadas classes excepcionais que não crêem, aquela camada que conforme tão bem se expressou Evguénii Pávlovitch [um dos personagens do romance], perdeu as suas raízes. Mas aí pela Europa uma formidável massa de gente está começando a perder a fé, um pouco por causa da treva e da mentira e muito, principalmente agora, por causa do fanatismo e do ódio da igreja e da cristandade. (O Idiota, Dostoiévski, Fiódor. Editora Martin Claret, trad.: José Geraldo Vieira, 2006)
23 julho 2010
SUBAMOS
“Há coisas incríveis acontecendo pelo mundo, e nós aqui, vivendo como burros”.
Gabriel García Márquez - Cem anos de Solidão
09 julho 2010
30 anos sem poesia
"De manhã escureço. De dia tardo. De tarde anoiteço. À noite ardo". "A gente não faz amigos, reconhece-os". "Existem umas feias potáveis. Mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão". "O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado". "Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém".
No dia 9 de Julho de 1980, o autor das frases acima, Vinicius de Moraes, falecia em virtude de um edema pulmonar.
Hoje, 9 de Julho de 2010, trinta anos após a morte de Vinicius, namoros continuam sendo embalados pela sua poesia, amizades continuam sendo valorizadas conforme suas linhas e as noites de boêmia regadas com sua música.
Vinicius é um desses caras que não morrem. É desses que se tornam eternos, e não só enquanto duram. Sua poesia remeterá sempre à imagem do bom amigo, grande boêmio e eterno apaixonado pelas mulheres.
Ouvi, certa vez, que todo homem que se preze tem que ser um pouco Vinicius de Moraes. Não ousei discordar.
É, Poetinha, 'estamos sós, como os veleiros nos portos silenciosos'. Mas, como diria Chico, a gente vai levando.
Deixo a memória com um samba. Um samba que não é de Vinicius. É 'O Samba pra Vinicius'.
SAMBA PRA VINICIUS
Toquinho e Chico Buarque
10 junho 2010
Não são os fatos que produzem felicidade
Chico Buarque canta João e Maria dizendo que pela sua lei se é obrigado a ser feliz, mas pra lá desse quintal é uma noite que não tem mais fim. Aí, vem outro Buarque, o Cristovam, senador da República, e apresenta projeto de emenda à Constituição para incluir no texto como essencial à busca da felicidade, um conjunto de direito sociais, desdobrados em direito à saúde, educação, moradia, lazer, assistência e previdência social, proteção à maternidade. Insuficiente a felicidade química, agora se inventa a felicidade legal.
Será que o exercício de todos esses direitos faz a pessoa mais feliz? Um norte-americano que ingere alimentos suficientes para alimentar três pessoas, consome energia suficiente para aquecer e transportar quatro, mora em espaço suficiente para cinco, é mais feliz que alguém que vive na linha da pobreza? A felicidade é objetiva ou subjetiva? Os europeus que tudo conquistaram padecem de visível e triste tédio diante da ausência de coisas grandes para conquistar. Os desafios de tudo fazer como os que temos no Brasil são causa de infelicidade?
A intenção do senador Cristovam Buarque é generosa. Diga-se, a candidatura a presidente da República em 2006, com discurso centrado no tema da educação foi a nota poética daquela eleição. A sua presença no pleito foi causa de felicidade. Os contorcionismos a que o mercado eleitoral compele os candidatos mais competitivos dão ar quase patético às eleições. Para que a tristeza não seja avassaladora, sempre surgem candidaturas poéticas que fazem discursos melódicos, quer usem a cadência do samba ou de Camões. Voltando da digressão, o senador diz que a felicidade se desdobra em sete dimensões: para cima é estar bem com Deus; para baixo é estar em harmonia com a Terra; para frente é não ter medo do futuro; para trás, não ter remorso; para o lado direito, estar de bem com a família; para o lado esquerdo, conviver com a comunidade (o mundo); por fim, a sétima dimensão, é para dentro, é estar bem consigo.
A expressão jurídica da generosidade do senador não é rústica como se um tirano decretasse a obrigação de ser feliz. A rigor, isso seria inconstitucional porque qualquer um poderia alegar cerceamento ao seu direito de ser infeliz, rabugento, mal-humorado, mal-amado. Ele foi suficientemente hábil para redigir a proposta de modo a que o direito seja relativo a aspectos materiais como meio para a felicidade, assegurando que a pretensão de mudança do texto seja congruente com os princípios da Constituição, se mantendo a liberdade para ser feliz ou infeliz. Assim, mesmo quem possua todos os bens materiais, tem o direito a escolher se quer ser feliz ou infeliz. Isso, a rigor, reduz a felicidade a seu aspecto subjetivo, isto é, ao modo como a pessoa vê o mundo e se vê nele. O exemplo clássico nos livros de filosofia é o adultério: se Tício acredita que Laetitia é fiel, apesar das escapadinhas secretas que ela dá enquanto ele vai à guerra contra os bárbaros, Tício é subjetivamente feliz. D’outra banda, Laetitia age como Penélope e se mantém fiel enquanto Tício está em combate, mas Tício não acredita nisso e fica subjetivamente infeliz. Em outras culturas sequer há o conceito de adultério, não sendo a multiplicidade de parceiros fonte de tristeza, só de alegria. Não são os fatos que produzem felicidade, mas o modo como a pessoa se posiciona diante deles.
Lupicínio, cantado por afinados e desafinados, dizia que o pensamento é uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar. Ainda que a felicidade vá embora, na minha casa, lá detrás do mundo, encontro o aconchego que restaura as emoções e traz nova sensação de felicidade. É no eu profundo que está a felicidade. Diga-se a música, chave das portas da alma, tira qualquer um da fossa, como o sofisticado balanço do famoso dezesseis toneladas.
Friedmann Wendpap
Será que o exercício de todos esses direitos faz a pessoa mais feliz? Um norte-americano que ingere alimentos suficientes para alimentar três pessoas, consome energia suficiente para aquecer e transportar quatro, mora em espaço suficiente para cinco, é mais feliz que alguém que vive na linha da pobreza? A felicidade é objetiva ou subjetiva? Os europeus que tudo conquistaram padecem de visível e triste tédio diante da ausência de coisas grandes para conquistar. Os desafios de tudo fazer como os que temos no Brasil são causa de infelicidade?
A intenção do senador Cristovam Buarque é generosa. Diga-se, a candidatura a presidente da República em 2006, com discurso centrado no tema da educação foi a nota poética daquela eleição. A sua presença no pleito foi causa de felicidade. Os contorcionismos a que o mercado eleitoral compele os candidatos mais competitivos dão ar quase patético às eleições. Para que a tristeza não seja avassaladora, sempre surgem candidaturas poéticas que fazem discursos melódicos, quer usem a cadência do samba ou de Camões. Voltando da digressão, o senador diz que a felicidade se desdobra em sete dimensões: para cima é estar bem com Deus; para baixo é estar em harmonia com a Terra; para frente é não ter medo do futuro; para trás, não ter remorso; para o lado direito, estar de bem com a família; para o lado esquerdo, conviver com a comunidade (o mundo); por fim, a sétima dimensão, é para dentro, é estar bem consigo.
A expressão jurídica da generosidade do senador não é rústica como se um tirano decretasse a obrigação de ser feliz. A rigor, isso seria inconstitucional porque qualquer um poderia alegar cerceamento ao seu direito de ser infeliz, rabugento, mal-humorado, mal-amado. Ele foi suficientemente hábil para redigir a proposta de modo a que o direito seja relativo a aspectos materiais como meio para a felicidade, assegurando que a pretensão de mudança do texto seja congruente com os princípios da Constituição, se mantendo a liberdade para ser feliz ou infeliz. Assim, mesmo quem possua todos os bens materiais, tem o direito a escolher se quer ser feliz ou infeliz. Isso, a rigor, reduz a felicidade a seu aspecto subjetivo, isto é, ao modo como a pessoa vê o mundo e se vê nele. O exemplo clássico nos livros de filosofia é o adultério: se Tício acredita que Laetitia é fiel, apesar das escapadinhas secretas que ela dá enquanto ele vai à guerra contra os bárbaros, Tício é subjetivamente feliz. D’outra banda, Laetitia age como Penélope e se mantém fiel enquanto Tício está em combate, mas Tício não acredita nisso e fica subjetivamente infeliz. Em outras culturas sequer há o conceito de adultério, não sendo a multiplicidade de parceiros fonte de tristeza, só de alegria. Não são os fatos que produzem felicidade, mas o modo como a pessoa se posiciona diante deles.
Lupicínio, cantado por afinados e desafinados, dizia que o pensamento é uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar. Ainda que a felicidade vá embora, na minha casa, lá detrás do mundo, encontro o aconchego que restaura as emoções e traz nova sensação de felicidade. É no eu profundo que está a felicidade. Diga-se a música, chave das portas da alma, tira qualquer um da fossa, como o sofisticado balanço do famoso dezesseis toneladas.
Friedmann Wendpap
25 maio 2010
Será a felicidade necessária?
Os pais costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. Não há encargo mais pesado para a pobre criança.
Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada. Diante da pergunta "Você é feliz?", dois fardos são lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade, é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.
Os pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960.
É irrelevante que entrem na faculdade, que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão. O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança.
"É a felicidade necessária?" é a chamada de capa da última revista New Yorker para um artigo que, assinado por Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre "satisfação", como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem, ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados, de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness: What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17 000 dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50% e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total. No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário: se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade, "por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar dobrando e redobrando o PIB?".
Outro livro, de autoria de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos, com seus 1 400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã. Os dois livros vão na mesma direção das conclusões de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, "que podem aumentar o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade de vida".
Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir na formulação das políticas públicas. O propósito é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade e um bom salário para o filho.
Roberto Pompeu de Toledo
Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada. Diante da pergunta "Você é feliz?", dois fardos são lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade, é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.
Os pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960.
É irrelevante que entrem na faculdade, que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão. O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança.
"É a felicidade necessária?" é a chamada de capa da última revista New Yorker para um artigo que, assinado por Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre "satisfação", como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem, ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados, de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness: What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17 000 dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50% e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total. No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário: se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade, "por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar dobrando e redobrando o PIB?".
Outro livro, de autoria de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos, com seus 1 400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã. Os dois livros vão na mesma direção das conclusões de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, "que podem aumentar o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade de vida".
Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir na formulação das políticas públicas. O propósito é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade e um bom salário para o filho.
Roberto Pompeu de Toledo
29 janeiro 2010
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