07 setembro 2008
06 setembro 2008
Saudade
"Ela era uma velhinha que morava sozinha, em uma grande casa. Não tinha amigos porque, ao longo dos anos, ela os vira morrer, um a um. Seu coração era um poço de saudade e de perdas. Por isso, ela decidira que nunca mais se ligaria afetivamente a ninguém. E, para se lembrar que um dia tivera amigos, passara a chamar as coisas pelos nomes dos amigos que haviam morrido. Sua cama se chamava Belinha. Era grande, sólida e confortável. Mesmo depois que ela se fosse, Belinha continuaria a existir. A poltrona confortável da sala de visitas se chamava Frida. Haveria de durar muitos anos mais. A casa se chamava glória. Tinha sido construída há mais de cem anos, mas não aparentava mais que vinte. Era feita de madeira muito forte, vigorosa. E o carro, grande, espaçoso se chamava Beto. “Haveria de servir”, pensava a velhinha, “para alguém, depois de sua morte”. E assim vivia a velhinha solitária.
Certo dia, quando estava lavando a lama de Beto, um cachorrinho chegou no portão O portão não tinha nome, porque ela achava que ele logo teria que ser substituído. Suas dobradiças estavam enferrujadas e a madeira apodrecida. O animalzinho parecia estar com fome e ela tirou um pedaço de presunto da geladeira e o deu ao cão, mandando-o embora. Porém, no dia seguinte, ele voltou. E no outro e no outro. Todos os dias, ele vinha, abanava o rabo e ela o alimentava, mandando-o embora. Ela dizia que Belinha não comportava um adulto e um cachorro, que Frida não gostava que cães sentassem nela e glória não tolerava pêlo de cachorro. E Beto? Bom, esse fazia os cachorros passarem mal. Um ano depois, o animal estava grande, bonito. E tudo continuava do mesmo jeito.
Até que um dia ele não apareceu. Ela ficou sentada na escada, esperando. No dia seguinte, também. Nada. Resolveu telefonar para o canil da cidade e perguntar se eles tinham visto um cachorro marrom. Descobriu que eles tinham dezenas de cachorros marrons. Quando perguntaram se ele estava usando coleira com o nome, ela se deu conta que nunca dera um nome para ele. Sentou-se e ficou pensando no cachorro marrom que não tinha coleira com um nome. Onde quer que estivesse, ninguém saberia que ele tinha de vir todos os dias até seu portão para que ela lhe desse de comer.
Tomou uma decisão. Dirigiu Beto até o canil e falou para o encarregado que queria procurar o seu cachorro. Quando ele lhe perguntou o nome do cachorro, ela se lembrou dos nomes de todos os amigos queridos aos quais havia sobrevivido. Viu seus rostos sorridentes, lembrou-se de seus nomes e pensou em como fora abençoada por ter conhecido esses amigos. “Sou uma velha sortuda”, pensou. “O nome do meu cachorro é Sortudo”, disse. E gritou, ao ver os cães no grande quintal: “aqui, Sortudo”! Ao som da sua voz, o cachorro marrom veio correndo. Daquele dia em diante, Sortudo morou com a velhinha. Beto parece que gostou de transportar o cachorro. Frida não se incomodou que ele sentasse nela. Glória não ligou para os pelos do cachorro. E todas as noites Belinha faz questão de se esticar bem para que nela possam se acomodar um cachorro marrom Sortudo…e a velhinha que lhe deu o nome."
04 setembro 2008
E a TV?
02 setembro 2008
Cicatriz
"Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Marcas. Umas serão mais profundas, outras superficiais, porém todas com algum significado. Serão detalhes que guardaremos dentro de nós e que quanto contados para outros talvez não tenham a menor importância, pois só nós saberemos o quanto foi incrível vivê-los. Poderá ser uma música, quem sabe um livro, talvez uma poesia, uma carta, um e-mail, uma viagem, uma voz, um encontro casual, ou um cumprimento afetuoso. Poderá ser um raiar de sol, um buquê de flores, um cartão de Natal, um abraço gostoso, um perfume, um gesto, uma palavra amiga num momento precioso. Pode vir a ser aquele incômodo sentimento de ter sido abandonado, ou uma decepção, uma mágoa, uma perda, ou uma ferida que abrimos no peito de alguém. Quem sabe uma linda amizade incomparável, um sonho que foi alcançado após muita espera e muita luta, ou outro que deixou de existir por puro fracasso. Pode ser simplesmente um instante, um olhar, um sorriso, um aroma, um conselho, um amparo, um beijo, um afago.
Para o resto de nossas vidas levaremos pessoas guardadas dentro de nós. Umas porque nos dedicaram carinho, outras porque foram objetos do nosso amor, ou outras por terem nos magoado profundamente. Quem sabe também haverá algumas que deixarão marcas mágicas por terem sido tão rápidas em nossas vidas e, mesmo assim, terem conseguido plantar dentro de nós muita coisa boa. Lá na frente é que poderemos realmente saber a qualidade de vida que tivemos, a quantidade de belas marcas que conseguimos carregar e a qualidade das marcas que deixamos nos outros. Bem lá na frente é que poderemos avaliar do que exatamente foi feita a nossa vida, se de amores ou de rancores, se de alegrias ou de tristezas, se de vitórias ou de derrotas, se de ilusões ou de realidades. Pense sempre que hoje é só o começo de tudo. Que se houver algo errado ainda está em tempo de ser mudado e que o resto de nossas vidas, de certa forma, ainda está em nossas mãos."
01 setembro 2008
Consciência da nossa inconclusão
31 agosto 2008
30 agosto 2008
Nascimento
Chamava-se Fernanda del Carpio. Haviam-na selecionado como a mais bela entre as cinco mil mulheres mais belas do país e a trouxeram para Macondo com a promessa de proclamá-la rainha de Madagáscar. Úrsula cuidou dela como se fosse uma filha. (...)
Com a temeridade atroz com que José Arcadio Buendía atravessara a serra para fundar Macondo, com o orgulho cego com que o Coronel Aureliano Buendía promovera as suas guerras inúteis, com a tenacidade insensata com que Úrsula assegurara a sobrevivência da estirpe, assim Aureliano Segundo procurou Fernanda, sem um só instante de desalento. Quando perguntou onde se vendiam coroas de defunto, levaram-no de casa em casa para que escolhesse as melhores. Quando perguntou onde estava a mulher mais bela que já surgira sobre a terra, todas as mães lhe levaram as suas filhas. Perdeu-se nos desfiladeiros da névoa, por tempos reservados ao esquecimento, nos labirintos da desilusão. Atravessou um ermo amarelo onde o eco repetia os pensamentos e a ansiedade provocava miragens premonitórias. Ao fim de semanas estéreis, chegou a uma cidade desconhecida onde todos os sinos tocavam a finados. Embora nunca os tivesse visto, nem ninguém os tivesse descrito, reconheceu imediatamente os muros carcomidos pelo sal dos ossos, as decrépitas varandas de madeiras destripadas pelos fungos, e pregado no portão e quase apagado pela chuva o cartãozinho mais triste do mundo: VENDEM-SE COROAS FÚNEBRES.
Desse momento até a manhã gelada em que Fernanda abandonou a casa aos cuidados da Madre Superiora, mal houve tempo para que as freiras cosessem o enxoval e colocassem em seis baús os candelabros, a baixela de prata e o peniquinho de ouro e os incontáveis e inúteis destroços de uma catástrofe familiar que tardara dois séculos para se consumar. D. Fernando recusou o convite para acompanhá-los. Prometeu ir mais tarde, quando acabasse de liquidar os seus compromissos, e a partir do momento em que deu a bênção à filha voltou a se trancar no escritório, a escrever os bilhetes com as vinhetas de luto e o escudo de armas da família que haveriam de ser o primeiro contato humano que Fernanda e seu pai tiveram em toda a vida. Para ela, esta foi a data real do seu nascimento. Para Aureliano Segundo foi quase ao mesmo tempo o princípio e o fim da felicidade."
29 agosto 2008
28 agosto 2008
Bom ou Mau
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado."
Camões – O Desconcerto do Mundo
27 agosto 2008
26 agosto 2008
A Bela
"Até o último instante em que esteve na Terra ignorou que o seu irreparável destino de fêmea perturbadora era uma desgraça cotidiana. Cada vez que aparecia na sala de jantar, contrariando as ordens de Úrsula, causava um pânico de exasperação entre os forasteiros. Era evidente demais que estava inteiramente nua sob a bata grosseira e ninguém podia entender que o seu crânio pelado e perfeito não fosse um desafio e que não fosse uma criminosa provocação o descaro com que descobria as coxas para aliviar o calor e o prazer com que chupava os dedos depois de comer com as mãos. O que nenhum membro da família jamais soube foi que os forasteiros não tardaram a perceber que Remedios, a bela, desprendia um hálito perturbador, uma brisa de tormento que continuava sendo perceptível várias horas depois de ela ter passado. Homens experimentados nos transtornos do amor, vividos no mundo inteiro, afirmavam não ter padecido nunca de uma ansiedade semelhante à que produzia o perfume natural de Remedios, a bela. Na varanda das begônias, na sala de visitas, em qualquer lugar da casa, se podia assinalar o lugar exato onde estivera e o tempo transcorrido desde que deixara de estar. Era um rastro definido, inconfundível, que ninguém da casa podia distinguir porque estava incorporado há muito tempo aos cheiros cotidianos, mas que os forasteiros identificavam imediatamente. Por isso eram eles os únicos que entendiam que o jovem comandante da guarda tivesse morrido de amor e que um cavaleiro vindo de outras terras tivesse caído
Gabriel Garcia Márquez - Cien Años de Soledad
22 agosto 2008
21 agosto 2008
Dor
"A dor é parte do processo da vida. Nas sociedades ocidentais, ao tratar de evitar a dor constantemente, evita-se também a alegria, a possibilidade de prazer, a capacidade de gozo. Se temos tanto medo à dor, estamos também negando a possibilidade do outro lado da dor que é a capacidade de gozar."
Alejandro Gonzáles Iñárritu
20 agosto 2008
19 agosto 2008
Será que esse curso é bacana?
(Link)