31 dezembro 2009

Ano Novo

O Ano Novo esta chegando a nossa estação e nos convidará para mais uma viagem de 365 dias.
Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro.
Procure um lugar à janela e desfrute cada uma das paisagens que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.
Não se assuste com os abismos, nem com as curvas que não lhe deixam ver os caminhos que estão por vir.
Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho, beirais de estrada e tons mutantes de paisagem.
Desdobre o mapa e planeje roteiros.
Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento ao apito da partida.
E quando decidir descer na estação onde a esperança lhe acenou não hesite.
Desembarque nela os seus sonhos...
Desejo que a sua viagem pelos dias desse novo ano seja de primeira classe.

24 dezembro 2009

Jesus, um nordestino

Eu penso que Jesus devia de nascer em Belém, na Paraíba.
Sim, em Belém, perto de Guarabira e vizinho de Pirpirituba. E se não bastasse a vizinhança a indicar a rima e o caminho, perto de Nova Cruz.

Era filho caçula de dona Maria, mulher dona de beleza e que germinava bondade nas pessoas.
Era menino moreno, muito esperto, embalado em rede de algodão cru. Tinha sandálias com currulepo entre os dedos e cajus, em dezembro, a matar a sede.
E seu pastor fora um vaqueiro nordestino, de gibão e perneira e guarda-peito, para livrar as suas carnes da Jurema.
Vieram adorar o Deus-Menino os santos reis entrelaçados de bom jeito: um negro, um índio e um branco português.
Seria fácil encontrar espinhos, para coroar a fronte de de Jesus, e um pau de arara em São José do egito para levá-lo, retirante, para São Paulo.
Um santo feito para as grandes secas!
Meu Deus, meu Deus, por que nos abandonaste, exclamaria enquanto repartia com o povo nu as suas vestes, multiplicadas como pães ou peixes.
Quando criança, o Jesus da Paraíba era carpinteiro como seu pai, fazendo caixões azúis para os anjos do lugar. E proezas num cavalo de pau. Sim, num cavalo de pau, pois seu jumento era muito magro e nem servia para carne de jabá.
Jesus era um menino desnutrido a fazer o bem, desnutrido como os outros da região, onde as coisas só vão na base do milagre ou da força parida da vontade.
Eu penso que Jesus devia de nascer em Belém, na Paraíba!
Diógenes da Cunha Lima

17 dezembro 2009

A camiseta

Ótimo curta que compara a intolerância religiosa dos talebãns com a limitada visão americana de liberdade.

14 dezembro 2009

11 dezembro 2009

A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Manuel Bandeira

09 dezembro 2009

Sábia Natureza

O orgasmo é um truque de que se vale a natureza para conseguir seus fins.
Arthur Schopenhauer

08 dezembro 2009

Absolut World


No Mundo Absolut a moeda é o abraço. Isso me faz lembrar a seguinte paródia. Uma grande verdade sobre as bebidas, convenhamos.

07 dezembro 2009

Playboy confirma: A relação sexual não existe


Até agora eu não sei se quem está aí é a Kendra Wilkinson ou a Holly Madison ou a Bridget Marquardt. Eu sei que a edição é de fevereiro de 2009, nos Estados Unidos, e o fotógrafo também não tenho certeza. Desde que comecei a ler Playboy, é assim. Desconcerto, encantamento, graça, delícia, confusão, deriva. Na minha formação, essa revista sempre foi referência. Grandes entrevistas? Grandes desenhistas? Grandes escritores? Tudo isso, mas, acima de tudo, elas. Peladas, semi-vestidas, à meia-luz, sob o sol, na cama, elas. A Playboy foi a primeira revista a, sem querer e sem perceber, entender Lacan: a relação sexual não existe. Existem os atos sexuais, porém “a” relação plena, total, sem falhas, sem tropeços, sem desequilíbrio, sem dor, sem brigas, não existe. E por quê? Porque a sexualidade humana não é natural, como a dos bichos. A sexualidade humana é totalmente artificial. Por isso o eterno fazer de conta, a eterna busca de um corpo que só existe na fantasia e as reticências para o próximo número, o próximo encontro, o próximo desencontro. Obviamente, a revista nada sabe disso. Ela nasceu para vender a existência da relação sexual, trazendo sempre em suas páginas os mais estapafúrdios conselhos e “dicas” sobre como beijar, o que fazer nas preliminares, o que dizer durante e como sair depois. E aí estava o mais engraçado da revista. Quem seria capaz de levar a sério uma babaquice dessas? A cada número a revista acabava desmentindo, sem querer, os números anteriores, trazendo agora sim, novas e atualizadas técnicas, como se o sexo fosse equivalente a trocar o pneu de um carro, tornando mais ridículo ainda todo esse esforço “editorial” em prol do “máximo” desempenho. Lá vinha o “especialista” pontificar, logo ali a bebida “certa”, um pouco antes, a roupa “adequada”, de repente, o lugar “quente”, encartado, o ranking dos “pontos de encontro”, tudo uma besteirada que ajudou e ajuda os homens e as mulheres a se interessarem mais pelos problemas das fantasias e da sexualidade. Viva a Playboy! A revista que, sem querer, fala do que nada sabe, diz mais do que pretende, se equivoca o tempo todo, e faz a gente tropeçar nas Kendras, nas Hollies e nas Brigites da vida.
Blog do Leonardo Ferrari

03 dezembro 2009

Para voltar a crer

Não faltam motivos para descrer da Humanidade. Vamos combinar que fizemos coisas extraordinárias, mas nossa passagem pela Terra não está sendo, exatamente, um sucesso. Para cada catedral erguida bombardeamos três, para cada civilização vicejante liquidamos quatro, a cada gesto de grandeza correspondem cinco ou seis de baixeza, para cada Gandhi produzimos sete tiranos, para cada Patrícia Pilar dezessete energúmenos. Inventamos vacinas para salvar a vida de milhões ao mesmo tempo que matamos outros milhões pelo contágio e a fome. Criamos telefones portáteis que funcionam como gravadores, computadores - e às vezes até telefones -, mas ainda temos problema com a coriza nasal. Nosso dia a dia é cheio de pequenas calhordices, dos outros e nossas. Rareiam as razões para confiar no vizinho ao nosso lado, o que dirá do político lá longe, cuja verdadeira natureza muitas vezes só vamos conhecer pela câmera escondida. Somos decididamente uma espécie inconfiável, além de venal, traiçoeira e mesquinha. E estamos envenenando o planeta, num suicídio lento do qual ninguém escapará. E tudo isso sem falar no racismo, no terrorismo e no Big Brother Brasil.

Eu tinha desistido de esperar pela nossa regeneração. Ela não viria pela religião, que se transformou em apenas outro ramo de negócios. Nem viria pela revolução, mesmo que se pagasse para o povo ocupar as barricadas. Eu achava que a espécie não tinha jeito, não tinha volta, não tinha salvação. Meu desencanto era total. Só o abandonaria diante de alguma prova irrefutável de altruísmo e caráter que redimisse a Humanidade. Uma prova de tal tamanho e tal significado que anularia meu ceticismo terminal e restauraria minha esperança no futuro. E esta prova virá neste domingo, se o Grêmio derrotar o Flamengo no Maracanã.

Se o Grêmio derrotar o Flamengo, o Internacional pode ser campeão. Mas o mais importante não é isso. Se o Grêmio derrotar o Flamengo mesmo sabendo as consequências e o possível beneficio para o arquiadversário, estará dando um exemplo inigualável de superioridade moral. A volta da minha fé na Humanidade não interessa, Grêmio. Pense no que dirá a História. Pense nas futuras gerações!
Luis Fernando Veríssimo

20 novembro 2009

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira

16 novembro 2009

Tolstói

"O único consolo que sinto ao pensar na inevitabilidade da minha morte é o mesmo que se sente quando o barco está em perigo: encontramo-nos todos na mesma situação."

09 novembro 2009

Cópula

Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
culhões e membro, um membro enorme e turgescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti,
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz que aceso como um diabo,
arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.
Manuel Bandeira

08 novembro 2009

Chuva


Nós dois assim? É… porque não?
Eu sei… sim, tem chovido muito por aqui, a água anda gelada e cinzenta.
Mas sobra calor quando nos encontramos, o simples vislumbrar do teu olho parado no meu incendeia e alaga tudo ao mesmo tempo.
Quero me perder em você, ser resgatada por seus braços fortes, ser invadida feito território desconhecido e desabitado.
Recanto doce e selvagem à espera de ser desbravado.
Eroti-cidades

07 novembro 2009

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira

30 outubro 2009

A Dor

Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.

Anais Nin

23 outubro 2009

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

21 outubro 2009

Apesar de você

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de a “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiáÂ…Â…
Chico Buarque de Holanda - Apesar de você

Adaptação

Me nego a viver em um mundo ordinário como uma mulher ordinária. A estabelecer relações ordinárias. Necessito do êxtase. Não me adaptarei ao mundo. Me adapto a mim mesma.

Anais Nin

20 outubro 2009

O Nascimento de um psicopata



Depois o garoto mata toda a familia com o garfo de churrasco e ninguém entende o motivo...

19 outubro 2009

A consciência e o sono

Digo a vocês, o mal não existe e não existem forças maléficas no mundo. Existem apenas pessoas de consciência e pessoas que estão profundamente adormecidas - e o sono não tem força alguma. Toda a energia está nas mãos das pessoas despertas.
E uma pessoa desperta pode despertar o mundo inteiro. Uma vela acesa pode acender milhões de velas sem que sua chama se apague.
Osho

15 outubro 2009

A tua divindade

Sim, eu sou o começo de algo novo;
mas não o começo de uma nova religião.
Eu sou o começo de um novo tipo de religiosidade,
que não conhece adjetivos nem fronteiras;
que só conhece a liberdade do espírito,
o silêncio do teu ser, o crescimento do teu potencial
e, finalmente, a experiência da tua divindade interior -
não de um Deus fora de ti, mas de uma divindade que emana de ti.

Osho, em Autobiografia de um Místico Espiritualmente Incorreto

05 outubro 2009

Paciência e bom sexo, não necessariamente nessa ordem

Paciência e bom sexo. Esta é a receita de um casamento longo. Quem disse isso foi o americano Gay Talese, 77 anos, o jornalista mestre dos jornalistas, em entrevista recente. Talese inspirou a minha geração de repórteres a escrever sobre gente. Seu próximo livro será sobre os 50 anos de convívio com a mulher. Meio século de casamento e ainda apaixonados? Achei o máximo seu poder de concisão numa matéria em que o protagonista é ele próprio. Pensei: não pode ser tão simples, há outros segredos nesse coquetel de felizes para sempre. O humor. A admiração mútua. A cumplicidade. O respeito. A identificação. Gostos parecidos. Torcer pelo mesmo time de futebol.

Essa história de que “os opostos se atraem” só faz sentido em aula de Física ou em namoro-relâmpago aos 19 anos. A vida depois ensina que o amor é um espelho. Mesmo que fique um pouco turvo. Porque negociar e fazer concessões o tempo todo deve ser um porre. Igual a comprar tapetes no Marrocos. Barganha daqui e dali e todos se sentem meio ludibriados.

No fundo, Talese está certo. Se eu tivesse que escolher apenas dois segredos para manter um bom casamento, acho que seriam mesmo “paciência e bom sexo”. Sem bom sexo, a paciência é missão impossível. Já experimentou os efeitos do jejum continuado ou da frustração na cama? Alguém consegue ser paciente com o inferno do outro se não existir bom sexo? Por algum tempo, talvez. E sem paciência, o sexo ficará cada vez pior e mais raro. É possível sentir tesão por alguém que só reclama e se irrita? Sem paciência e bom sexo, ahá: lá vêm elas, as cobranças. O diálogo de surdos. O resto todos sabem. É inacreditável o número de casais que trocam farpas e ironias publicamente.

Eu e o casamento não fomos feitos um para o outro. Agora, comprovei, definitivamente. Posso contar nos dedos de uma mão o número de casamentos a que eu fui. No último domingo, eu estava preparada psicologicamente para ir ao casamento de uma grande amiga. Ou imaginava estar. Até comprei vestido. À noite, ao pedir carona a um amigo, ele me disse incrédulo: “Ruth, o casamento foi às 13h”. Que vergonha. Mas tem lógica. Eu jamais casei oficialmente, por opção. Por isso os casamentos me parecem cerimônias de ficção. Não quero dizer que não acredito no amor sincero e no companheirismo ou na vontade de construir projetos comuns. Vivi tudo isso intensamente com dois ex, e com cada um tive um filho. Hoje, não “moro” mais, só namoro – o mesmo há 18 anos. Cada um tem sua casa. Eu acharia difícil não ter um amor, um parceiro para dividir a vida. Não seria feliz sozinha.

Há 47 milhões de adultos solteiros no Brasil, homens e mulheres. É muita gente. Não sei quantos deles estão sós ou apenas solteiros. Solidão não faz bem.

Gay e Nan Talese passaram por algumas tormentas, como todos os casais. A maior foi quando ele escreveu o livro A Mulher do Próximo (1980), sobre a revolução sexual americana. Foi um escândalo na época. Talese foi cliente de casas de massagem, e participou de campos de nudismo. Não levava crachá de jornalista. Desconfio que o mais paciente do casal tenha sido a mulher dele, que é editora de livros. Ela está sendo entrevistada por repórteres para dar sua versão sobre o casamento com Talese. Não sei o que eu acharia de um marido que dissesse o seguinte: “Minha mulher sempre foi muito reservada. Quem participou dos escândalos fui eu. Ela sempre reagiu com muita dignidade. Eu diria que Nan foi a Hillary Clinton da minha vida: ela sempre reagiu a tudo com altivez”.

Conheço vários casais nessa mesma linha clintoniana. “Deram certo” porque a mulher foi muito digna. Isso significa que o casamento sobreviveu às estripulias do marido, graças à paciência dela… e ao bom sexo dele. Talese disse que seu casamento é uma história de amor e ódio, paixão e raiva, e enche a bola da mulher com quem teve duas filhas: “Ela continua uma amante espetacular”.
Ruth de Aquino - Clunas Época

22 setembro 2009

Pinturas que parecem fotografias

À primeira vista você pode imaginar que se trata de uma foto qualquer mas, basta aproximar-se um pouco mais, para perceber que trata-se de uma pintura. Isso mesmo, uma impressionante pintura totalmente feita a mão.

A autora é a novaiorquina Alyssa Monks. Usando apenas pincel, tinta e muita paciência e criatividade, a jovem de 31 anos vangloria-se de que suas criações conseguem ser mais reais do que algumas fotografias originais.

“Eu olho para os detalhes do ‘imperfeito’, e tento mostrar o quão belo é o real, e não o ideal. Acho que muitas vezes é a minha vontade de abandonar minhas próprias expectativas que me permite captar as surpresas interessantes sobre o rosto e o corpo”.




16 setembro 2009

Meu Eus

Desde que eu nasci estou num conflito
Aflito pra saber porque com tanta gente
Que eu podia ser eu nasci eu
Eu nasci eu
Perdido entre sentimentos bons
Pequenos delitos e contradições
Entre a luz e o breu

Eu molho o pão no café e levo fé
Que deus é preto, fuma cachimbo
Nasce menino e cresce mulher
Vira fumaça, não tem destino
Brinca de roda, roda nos ventos
Dança na chuva, pois é um índio
E cai no frevo, dança ballet
No que imagino

Em tudo que há ele é

Mas eu não sou um só, não sou só um
Eu também sou milhões de eus
Não sou deus, mas sou eus
Não sou deus, mas sou eus
Eu também sou milhões de eus

Pois sou eu quem acredita em mim
Sou eu quem me explico quando me complico
Eu mesmo atendo às minhas preces
Eu mesmo ouço meus próprios gritos

Oh brother, buscando minhas próprias conclusões
Oh brother, foi eus que quis assim
Oh brother, eus é deus dentro de mim

Graças à deus!
Gabriel Maia e Mauricio Baia

14 setembro 2009

Deixa

Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia.
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava
Oswaldo Montenegro - Se puder sem medo

12 setembro 2009

Santa Natureza

Stanislav Blagenkov


Um estudo realizado pela Universidade de Radboud (Holanda) e publicado no “Journal of Experimental and Social Psychology” conclui que se um homem ficar sete minutos na companhia de uma mulher bonita, seu cérebro…falha. Testes mediram o desempenho cerebral e verificaram que ele é menor quando um homem está perto de alguém atraente do que quando está ao lado de um outro homem ou de uma mulher que não desperta seu interesse.

Quarenta estudantes do sexo masculino, heterossexuais, foram submetidos a testes de memória, correlação e capacidade cognitiva. Depois foram levados para conversar com várias pessoas. Na volta, fizeram novos testes. Aqueles que ficaram na companhia de beldades femininas tiveram uma grande queda nos resultados. Os outros mantiveram o nível. Os resultados provaram que quanto mais impressionados os homens ficavam, mais tempo demoravam a responder e menos acertavam as respostas das questões.

O estudo afirma que em situações semelhantes os homens mudam para um comportamento denominado de “reprodução concentrada”, pois estão programados para transmitir os seus genes e tudo que conseguem pensar é em fazê-lo. Ou seja, o motivo é que os homens estão sempre focados na evolução e manutenção da nossa espécie, tudo para a preservação dos seres humanos. E tem gente que ainda reclama disso...

Os mesmos testes realizados em mulheres revelaram que o poder de concentração e raciocínio não sofreu alterações.

Segundo a matéria do Telegraph, que fala desta pesquisa, os psicólogos resolveram começar o estudo depois que um deles simplesmente esqueceu seu endereço ao estar impressionado com a presença de uma mulher. Ela perguntou onde ele morava e o rapaz não conseguiu lembrar. Tiro no pé. Esse ai não conseguiu preservar a espécie, pelo menos nesse dia.

O fato é que aquilo que todos os homenes e as mulheres mais observadoras já estavam cansados de saber foi cientificamente comprovado!

07 setembro 2009

Saudade

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia da língua portuguesa. "Saudade", só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar". Diz a lenda que no Brasil colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Provém do latim "solitáte", solidão. A gênese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.
A origem etimológica das formas atuais "solidão", mais corrente e "solitude", forma poética, é o latim "solitudine" declinação de "solitudo, solitudinis", qualidade de "solus". Já os vocábulos "saúde, saudar, saudação, salutar, saludar" proveem da família "salute, salutatione, salutare", por vezes, dependendo do contexto, sinônimos de "salvar, salva, salvação" oriundos de "salvare, salvatione". O que houve na formação do termo "saudade" foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de "solitarius" que por sua vez advem de "solitas, solitatis", possuidora da forma declinada "solitate" e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o ato de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de "salute e salutare", que na transição do latim para o português sofrem o fenômeno chamado síncope, onde perde-se a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final. O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade "saudosismo" e seu adjetivo "saudosista", apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional "saudoso", que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em "os saudosos tempos da mocidade", ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.
Define, então, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de entes queridos ou situações prazerosas.

05 setembro 2009

Desconfiança

“(...)Et je comprenais l’impossibilité où se heurte l’amour. Nous nous imaginons qu’il a pour objet un être qui peut être couché devant nous, enfermé dans un corps. Hélas! Il est l’extension de cet être à tous les points de l’espace et du temps que cet être a occupés et occupera. Si nous ne possédons pas son contact avec tel lieu, avec telle heure, nous ne le possédons pas. Or nous ne pouvons toucher tous ces points. Si encore ils nous étaient désignés, peut-être pourrions-nous nous étendre jusqu’à eux. Mais nous tâtonnons sans les trouver. De là la défiance, la jalousie, les persécutions. Nous perdons un temps précieux sur une piste absurde et nous passons sans le soupçonner à côté du vrai”.
Marcel Proust in La Prisonnière – A la Recherché du Temps Perdu.


“(…) E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mas ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos seu contato com tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la”.
Marcel Proust

03 setembro 2009

O tempo e as jabuticabas

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio. Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão-somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena.

Rubem Alves

20 agosto 2009

Globo x Record

Depois de ser alvo de várias notícias que relataram o recebimento, pela Justiça, de denúncia do Ministério Público de São Paulo e da abertura de ação criminal contra Edir Macedo, fundador da Iurd, e dono da Rede Record, além de mais nove integrantes da igreja, sob acusação de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, a Record resolveu contra-atacar e adquiriu os direitos do documentário inglês "Muito Além do Cidadão Kane". Apesar de antigo (1993), o documentário demonstra a influência da Rede Globo na opinião pública brasileira. Mais do que um simples filme, esse documentário é obrigatório a qualquer brasileiro que queira entender minimamento o que acontece no seu país.
Independente disso, a briga entre as duas maiores redes de televisão do Brasil é muito mais divertiva e interessante do que qualquer um dos seus programas de auditório, reality shows ou novelas. Que continuem brigando!


14 agosto 2009

Nobody ever loved me like she did

Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo,
que estereliza os abraços,

não cantaremos o ódio,
porque este não existe,

existe apenas o medo,
nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões,
dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados,
o medo das mães,
o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte
e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Drummond - Congresso Internacional do Medo

13 agosto 2009

Dois que são UM

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tantas vezes enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

07 agosto 2009

Sei Lá

Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é, por exemplo
Que dá pra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida
Porque não há nada
Sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

A gente nem sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce
Antes que se acabe
E o sol que desponta
Tem que anoitecer
De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão
Vinicius de Moraes

06 agosto 2009

A Verdadeira Dívida Externa

O Encontro com Chefes de Estado da Comunicade Européia, em 21 de fevereiro de 2003, foi marcado pelo discurso "A verdadeira dívida externa", do Cacique Guaicaipuro Cautémoc, que causou embaraço aos líderes europeus.

Eu, Guaicaipuro Cautémoc, descendente dos que povoaram a américa há 40 mil anos, vim aqui encontrar os que nos encontraram há apenas 500 anos.

O irmão advogado europeu me explica que aqui toda dívida deve ser paga, ainda que para isso se tenha que vender seres humanos ou países inteiros.

Pois bem! Eu também tenho dívidas a cobrar. Consta no arquivo das índias ocidentais que entre os anos de 1503 e 1660, chegaram à europa 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata vindos da minha terra!... Teria sido um saque? Não acredito. Seria pensar que os irmãos cristãos faltaram a seu sétimo mandamento.

Genocídio?... Não. Eu jamais pensaria que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão.

Espoliação?... Seria o mesmo que dizer que o capitalismo deslanchou graças à inundação da europa pelos metais preciosos arrancados de minha terra!

Vamos considerar que esse ouro e essa prata foram o primeiro de muitos empréstimos amigáveis que fizemos à europa. Achar que não foi isso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que me daria o direito de exigir a devolução dos metais e a cobrar indenização por danos e perdas.

Prefiro crer que nós, índios, fizemos um empréstimo a vocês, europeus.

Ao comemorar o quinto centenário desse empréstimo, nos perguntamos se vocês usaram racional e responsavelmente os fundos que lhes adiantamos.

Lamentamos dizer que não.

Vocês dilapidaram esse dinheiro em armadas invencíveis, terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo. e acabaram ocupados pelas tropas da OTAN.

Vocês foram incapazes de acabar com o capital e deixar de depender das matérias primas e da energia barata que arrancam do terceiro mundo.

Esse quadro deplorável corrobora a afirmação de milton friedmann, segundo o qual uma economia não pode depender de subsídios.

Por isso, meus senhores da europa, eu, guaicaipuro cautémoc, me sinto obrigado a cobrar o empréstimo que tão generosamente lhes concedemos há 500 anos. E os juros.

É para seu próprio bem.

Não, não vamos cobrar de vocês as taxas de 20 a 30 por cento de juros que vocês impõem ao terceiro mundo.

Queremos apenas a devolução dos metais preciosos, mais 10 por cento sobre 500 anos.

Lamento dizer, mas a dívida européia para conosco, índios, pesa mais que o planeta terra!... E vejam que calculamos isso em ouro e prata. Não consideramos o sangue derramado de nossos ancestrais!

Sei que vocês não têm esse dinheiro, porque não souberam gerar riquezas com nosso generoso empréstimo.

Mas há sempre uma saída: entreguem-nos a europa inteira, como primeira prestação de sua dívida histórica.

02 agosto 2009

Sou

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca

30 julho 2009

Paradoxos

Dou-me de presente todas as idéias. Só não me dou de presente a idéia de infinito. Não me acostumei em vida a justificar qualquer hierarquia, não me acostumei a pensar a desigualdade.

A relação do homem com o infinito não passa pelo campo do saber. O infinito é um desejo que se nutre de sua própria fome de... infinito!

Eu, um metafísico?! De jeito nenhum. Encantam-me os paradoxos. Ou melhor: sou vítima dos paradoxos.

Se levanto o punhal para assassiná-los, os paradoxos zombam de mim. Quanto mais zombam de mim, mais os admiro, por sua inconsistência sedutora.

Ah! Os paradoxos!... Tento corrigi-los. Ossos do ofício de quem foi um dia revisor de jornal!
(Para ouvir na voz de Antonio Abumjanra, clique aqui)
Graciliano Ramos

28 julho 2009

Parabéns!

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce
e leva dentro de si, oculta,
a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo
em que não sou nem és,
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha,
tão perto que se fecham seus olhos com meu sonho.
Pablo Neruda

26 julho 2009

Racionais?

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos

Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Bertold Brecht

18 julho 2009

A Ditadura da Felicidade

De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica, a bolsa Louis Vitton e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados
, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Por que só podemos ser felizes formando um par, e não como ímpares? Ter um parceiro constante não é sinônimo de felicidade, a não ser que seja a felicidade de estar correspondendo às expectativas da sociedade, mas isso é outro assunto. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com três parceiros, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um game onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.
Marta Medeiros

09 julho 2009

Sentido

O que é que tem sentido nesta vida
Não vai ser casa e comida
Cama fofa, cobertor
Não vai ser ficar mirando os astros
Ou então andar de rastros
Pelas sendas do senhor

Para muitos é o dinheiro
Ir de janeiro a janeiro
De pé no acelerador
Eu sinceramente, preferia
Uma vida de poesia
Na vigília de um amor

Há quem creia em ter status
Sair em fotos & fatos
Ter ações ao portador
Eu só acredito em liberdade
E
estar sempre com saudade
De viver um grande amor.
Vinícius de Moraes / Edu Lobo